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Contradições e reviravoltas: as versões de Flávio, Eduardo e Mário Frias sobre financiamento de filme

A relação entre a família Bolsonaro e o banqueiro Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, tem gerado uma série de inconsistências nas declarações do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), do deputado cassado Eduardo Bolsonaro (PL-RJ) e do produtor executivo Mário Frias. O centro da controvérsia reside no financiamento do filme biográfico “Dark Horse”, que narra a história do ex-presidente Jair Bolsonaro. Documentos e mensagens revelados pelo site Intercept Brasil e confirmados pela TV Globo indicam que Vorcaro se comprometeu a repassar cerca de R$ 134 milhões para o projeto, dos quais ao menos R$ 61 milhões já foram pagos, com negociações diretas envolvendo Flávio Bolsonaro.

Daniel Vorcaro encontra-se atualmente detido em São Paulo, sob acusação de liderar um esquema bilionário de fraudes financeiras, que a Polícia Federal estima em até R$ 12 bilhões. Este contexto adiciona uma camada de complexidade às versões apresentadas pelos envolvidos, que têm alternado suas narrativas sobre o contato com o banqueiro e a gestão financeira do filme, levantando sérios questionamentos sobre a transparência do processo.

Flávio Bolsonaro: Negações e Confissões sobre o Financiamento

O senador Flávio Bolsonaro inicialmente tentou desassociar o escândalo do Banco Master de sua família, chegando a usar uma camiseta com a frase “O PIX é do Bolsonaro; o Master é do Lula” e defendendo uma CPMI para investigar a instituição. Ele também afirmou publicamente que nunca teve contato com Daniel Vorcaro. No entanto, mensagens divulgadas revelaram uma relação direta e frequente, onde o senador se referia ao banqueiro como “irmão”.

Após a divulgação dos diálogos, Flávio admitiu ter mentido sobre a relação e confessou ter pedido dinheiro a Vorcaro, justificando-o como “patrocínio privado para um filme privado”, sem uso de dinheiro público ou Lei Rouanet. Ele alegou a existência de uma cláusula de confidencialidade no contrato de financiamento para justificar a omissão inicial. Contudo, o senador não forneceu detalhes sobre quem assinou o documento ou se ele poderia ser divulgado.

Ainda, Flávio Bolsonaro descreveu sua relação com Vorcaro como “estritamente profissional” e “monotemática”, focada apenas no filme. As mensagens, porém, indicam que ele organizava jantares com o banqueiro, e a presença de Jair Bolsonaro chegou a ser cogitada. O senador também argumentou desconhecer as suspeitas contra Vorcaro no período das negociações, apesar de seu pai ter criticado publicamente o Banco Master em julho de 2024 e o Banco Central já ter se manifestado sobre operações ligadas ao grupo.

Eduardo Bolsonaro: Do Advogado ao Produtor Executivo

As inconsistências envolvendo Eduardo Bolsonaro surgiram quando Flávio mencionou que os recursos de Vorcaro eram administrados por um fundo nos Estados Unidos, ligado ao advogado de imigração do deputado. A Polícia Federal investiga se o financiamento do filme foi usado para justificar transferências de dinheiro que poderiam ter mantido Eduardo nos EUA, onde ele reside desde fevereiro do ano passado. Os investigadores buscam esclarecer se os recursos foram efetivamente aplicados na produção audiovisual ou se houve desvio para despesas pessoais.

Inicialmente, Eduardo afirmou ter apenas apresentado um advogado especializado em gestão financeira a Mário Frias, alegando que o escritório cuidava da parte burocrática e legal dos recursos. Contudo, um contrato revelado pelo Intercept Brasil, assinado por ele em janeiro de 2024, o formaliza como produtor-executivo do filme ao lado de Mário Frias, encarregado também da captação de recursos.

Diante da nova evidência, Eduardo Bolsonaro admitiu ter assinado o contrato, justificando que sua atuação como produtor-executivo visava evitar a interrupção do projeto. Ele alegou ter assumido riscos financeiros e investido US$ 50 mil inicialmente, que teriam sido devolvidos após a chegada de novos investidores. Os documentos, no entanto, mostram que o contrato previa sua participação em decisões estratégicas, preparação de documentos para investidores e identificação de recursos.

Mário Frias: A Retratação sobre o Envolvimento de Vorcaro

O deputado federal Mário Frias também apresentou versões conflitantes sobre o envolvimento de Daniel Vorcaro no filme. Em uma nota inicial, Frias afirmou categoricamente que “não há um único centavo do sr. Daniel Vorcaro em Dark Horse”, contrariando as revelações sobre os aportes do banqueiro e a posterior admissão de Flávio Bolsonaro.

Cerca de 20 horas depois, Mário Frias divulgou uma nova nota, recuando da afirmação inicial. Ele passou a esclarecer que o Banco Master e Vorcaro não figuravam formalmente como investidores diretos, mas que o relacionamento jurídico do projeto ocorria com a Entre Investimentos e Participações, uma empresa que atuava em parceria com outras companhias de Vorcaro.

Segundo Frias, essa mudança de posicionamento não representava uma contradição, mas sim uma “diferença de interpretação sobre a origem formal do investimento”, uma vez que o nome de Vorcaro ou do Banco Master não apareciam diretamente no contrato. Essa explicação busca conciliar as informações divulgadas com a sua declaração inicial.

O Cenário da Investigação e os Valores em Questão

O financiamento do filme “Dark Horse” por Daniel Vorcaro, que totaliza R$ 61 milhões já pagos de um compromisso de R$ 134 milhões, levanta questões significativas, especialmente considerando que o valor já aportado é o dobro do orçamento de “O Agente Secreto”, filme que representou o Brasil no Oscar 2026. A prisão de Vorcaro e as acusações de fraude financeira adicionam urgência à investigação sobre a origem e o destino desses recursos.

A Polícia Federal busca determinar se o dinheiro foi efetivamente utilizado na produção audiovisual ou se houve desvio de finalidade, inclusive para cobrir despesas pessoais. As declarações contraditórias dos envolvidos apenas intensificam a necessidade de transparência e clareza sobre um caso que mistura política, cinema e um escândalo financeiro de grandes proporções.

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