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Abstenção nas eleições de 2026 é a segunda maior desde a redemocratização; pesquisador desvenda motivos

As eleições de 2026 registraram um dos maiores índices de abstenção desde a redemocratização do Brasil, com mais de 33 milhões de eleitores ausentes no primeiro turno. Este número expressivo, que representa 21,08% do eleitorado apto a votar, levanta questões sobre o engajamento cívico e o futuro da participação política no país. No entanto, o cientista político e pesquisador da Fundação Getulio Vargas (FGV), Jairo Nicolau, adverte que a alta taxa de não comparecimento às urnas não deve ser interpretada simplificadamente como um sinal generalizado de desinteresse pela política.

Segundo Nicolau, a complexidade por trás da abstenção reside na heterogeneidade dos motivos que levam os eleitores a não votarem. Longe de formar um grupo homogêneo, os ausentes incluem desde aqueles que não são legalmente obrigados a votar até indivíduos que enfrentam barreiras logísticas, de saúde ou burocráticas. A análise aprofundada desses fatores é crucial para compreender o verdadeiro cenário da participação eleitoral brasileira.

Abstenção em 2026: além do desinteresse político

O volume de 33,4 milhões de eleitores que não compareceram às urnas no primeiro turno de 2026, atingindo o maior patamar desde 1998, é um dado que exige atenção. Jairo Nicolau, autor do livro “O País Dividido”, destaca que essa massa de eleitores ausentes é composta por perfis e razões muito distintas para o não voto. Entre os motivos apontados, estão eleitores que não possuem a obrigatoriedade legal de votar, como idosos acima de 70 anos e analfabetos, e aqueles que enfrentam dificuldades práticas.

Problemas de saúde, viagens, compromissos de trabalho, burocracia para a transferência do título eleitoral e questões de acessibilidade aos locais de votação são fatores frequentemente citados. Uma pesquisa Datafolha indicou que viagem (19%), problemas de saúde (18%), desinteresse (13%) e trabalho (9%) foram os principais motivos. Além disso, a existência de municípios com mais eleitores cadastrados do que habitantes, devido a mudanças de domicílio não registradas ou eleitores falecidos ainda no cadastro, pode distorcer as taxas de abstenção.

Jovens e idosos: o perfil dos eleitores ausentes e as diferenças regionais

A análise da abstenção revela padrões demográficos e geográficos importantes. Entre os grupos que mais se destacam no não comparecimento às urnas estão os jovens de 18 a 29 anos, para quem o voto é obrigatório, e as pessoas com 70 anos ou mais, que têm o voto facultativo. Em 2022, por exemplo, 7,7 milhões de jovens nessa faixa etária deixaram de votar, um número que surpreendeu o pesquisador.

Regionalmente, o Nordeste registrou a menor taxa de abstenção em 2026, com 18,4%, uma queda em relação a 2022. Em contraste, o Sudeste apresentou os maiores percentuais, com 22,7%, concentrando 15,1 milhões dos eleitores ausentes no país. O Centro-Oeste também teve uma taxa elevada, de 21,7%. Esses dados indicam que as razões para a abstenção podem variar significativamente dependendo da região e do perfil socioeconômico do eleitorado.

A obrigatoriedade do voto em xeque: justificativas e multas

Apesar de o voto ser formalmente obrigatório no Brasil para cidadãos entre 18 e 70 anos, Jairo Nicolau argumenta que, na prática, ele tem se tornado facultativo. A facilidade de justificar a ausência por meio de aplicativos de celular e o baixo valor da multa eleitoral, de R$ 3,70, que muitas vezes é inferior ao custo de uma passagem de ônibus, minimizam as consequências do não comparecimento. Essa realidade, segundo o pesquisador, enfraquece o efeito coercitivo da obrigatoriedade.

Nicolau ressalta que não defende o aumento das multas, mas sim uma compreensão mais aprofundada dos motivos que levam os eleitores a não votarem. A falta de pesquisas específicas sobre esse público impede uma análise precisa do fenômeno, dificultando a formulação de políticas que possam incentivar a participação cívica. Para mais informações sobre o cenário eleitoral, visite o G1.

O desafio da mobilização para o segundo turno

Diante do cenário de alta abstenção, a mobilização dos eleitores se torna um desafio crucial para o segundo turno. Líderes políticos, como Lula (PT) e Flávio Bolsonaro (PL), já conclamaram seus apoiadores a intensificar os esforços para convencer aqueles que não compareceram no primeiro turno a exercerem seu direito ao voto. A capacidade de engajar esses milhões de eleitores ausentes pode ser determinante para o resultado final da disputa.

A compreensão das diferentes motivações por trás da abstenção é fundamental para estratégias de mobilização eficazes. Enquanto alguns eleitores podem ser facilmente incentivados a votar, especialmente os jovens, outros, como parte dos idosos, enfrentam barreiras mais significativas, como dificuldades de locomoção e problemas de saúde. A complexidade do fenômeno exige uma abordagem multifacetada e sensível às diversas realidades do eleitorado brasileiro.

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