Saúde

Agosto Dourado: volta ao trabalho não precisa significar o fim da amamentação

O fim da licença-maternidade e o retorno ao trabalho não precisam significar o fim da amamentação. Com planejamento, informação e uma rede de apoio, é possível organizar a rotina, manter a produção de leite e garantir que o bebê continue recebendo leite materno mesmo durante o período em que a mãe estiver fora. A orientação ganha destaque durante o Agosto Dourado, mês dedicado à conscientização sobre a importância do aleitamento materno.

Segundo a enfermeira obstetra Miriam de Souza Santos Silva, do Hospital Madrecor, da Hapvida, em Uberlândia (MG), a preparação pode começar cerca de 15 dias antes da volta às atividades profissionais. Nesse período, a mãe pode iniciar a ordenha e o armazenamento do leite, evitando a necessidade de formar grandes estoques.

“O mais importante é aprender a ordenhar, armazenar corretamente e estabelecer uma rotina que seja confortável”, orienta.

Ordenha ajuda a manter a produção

Durante a jornada de trabalho, a ordenha pode ser incorporada à rotina de acordo com o tempo de afastamento do bebê e as condições oferecidas pelo empregador. A prática ajuda a manter o estímulo das mamas e, consequentemente, a produção de leite.

A extração pode ser feita manualmente ou com bombas elétricas e manuais. Para Miriam, não existe uma quantidade fixa de ordenhas que funcione para todas as mulheres. A frequência deve considerar as necessidades de cada mãe e bebê.

O ambiente de trabalho também tem papel importante. Salas de apoio à amamentação oferecem espaço reservado e adequado para a retirada e conservação do leite.

No Hospital Madrecor, a orientação começa ainda após o parto. As enfermeiras auxiliam na primeira amamentação e, durante a internação, o setor de lactário orienta as mães sobre a ordenha manual e com bomba elétrica.

Armazenamento exige atenção

O leite humano cru pode ser mantido por até 12 horas na geladeira e por até 15 dias no freezer ou congelador. O recipiente deve ser identificado com a data e o horário da coleta e colocado na parte mais fria da geladeira, nunca na porta.

Uma das opções recomendadas é o frasco de vidro com boca larga e tampa plástica de fechamento adequado. O recipiente deve ser devidamente higienizado e fervido por 15 minutos antes do uso.

No trabalho, o leite retirado deve permanecer refrigerado. Ao fim do expediente, pode ser transportado em bolsa ou caixa térmica com gelo e, ao chegar em casa, deve ser colocado imediatamente na geladeira ou no freezer.

Para oferecer o leite ao bebê, a orientação é descongelá-lo na geladeira e aquecê-lo em banho-maria. O uso de micro-ondas ou a fervura do leite não são recomendados, pois podem provocar aquecimento desigual e comprometer componentes importantes do alimento. O recipiente deve ser movimentado suavemente para reincorporar a gordura separada.

Apoio é fundamental

Além dos cuidados técnicos, o retorno ao trabalho também envolve aspectos emocionais. Ansiedade e estresse podem dificultar a saída do leite em alguns momentos, sem significar perda da capacidade de amamentar.

Para Miriam, a amamentação não deve ser transformada em uma cobrança para a mulher. “Cada mãe e cada bebê têm uma realidade diferente. Precisamos oferecer acolhimento, informação segura e condições para que essa mulher faça o melhor possível dentro da sua realidade”, afirma.

A responsabilidade também envolve família, profissionais de saúde e empresas. O ambiente profissional pode contribuir oferecendo local limpo, confortável e reservado para a ordenha, além de estrutura para armazenamento do leite.

A legislação brasileira prevê ainda, pelo artigo 396 da CLT, dois descansos especiais de meia hora durante a jornada para a trabalhadora que amamenta, até que o bebê complete seis meses, com os horários definidos em acordo entre empregada e empregador.

Mais do que reforçar os benefícios do leite materno, o Agosto Dourado também chama atenção para as condições necessárias para que as mulheres consigam manter o aleitamento. “Com informação, planejamento e uma rede de apoio, muitas mães conseguem conciliar trabalho e aleitamento. Informação transforma e apoio fortalece”, conclui a enfermeira.

Bruno Martins

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