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Avatares políticos de IA operam sem aviso em redes sociais, aponta pesquisa

Um levantamento recente do Observatório das Eleições revelou uma preocupante tendência no cenário digital: a maioria dos perfis criados por inteligência artificial (IA) para comentar política nas redes sociais não informa explicitamente o uso dessa tecnologia. A pesquisa aponta para um cenário de opacidade que desafia a transparência e a integridade do debate público, especialmente em períodos eleitorais.

A constatação sublinha a crescente complexidade do ambiente informacional, onde a distinção entre conteúdo autêntico e artificial se torna cada vez mais tênue. A ausência de sinalização clara sobre a origem de tais avatares levanta questões importantes sobre a manipulação de narrativas e a disseminação de informações no espaço digital.

Estudo revela a opacidade dos avatares de IA na política

O Observatório das Eleições, em um trabalho conjunto das organizações Data Privacy Brasil e Aláfia Lab, identificou 18 casos de avatares feitos com IA entre janeiro de 2025 e abril de 2026. Desses, 61% não apresentavam qualquer indicação de que eram produzidos por inteligência artificial. Os personagens digitais assumem diversas personas nas redes sociais, como supostos eleitores, influenciadores, apresentadores, comentaristas e lideranças populares, buscando simular opiniões espontâneas.

A pesquisa detalha que, em muitos contextos, a origem artificial dos perfis só foi detectada após uma análise minuciosa de aspectos técnicos. Falhas de resolução, diferenças de proporção em imagens e elementos robotizados em áudios foram alguns dos indícios que permitiram aos pesquisadores identificar a natureza sintética desses avatares.

Regulamentação eleitoral e a dificuldade de identificação

As regras estabelecidas pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE) para o uso de inteligência artificial em eleições são claras: materiais criados ou manipulados com IA devem conter um aviso explícito. Essa sinalização precisa estar em local de destaque e de fácil visualização, informando sobre a produção ou alteração artificial do conteúdo e a tecnologia empregada.

Contudo, o levantamento aponta para uma lacuna na aplicação dessas diretrizes. Nos sete casos em que alguma forma de sinalização foi encontrada, os avisos eram fragmentados. Em três situações, a indicação vinha por marcadores automáticos das próprias plataformas. Em outras duas, marcas d’água das ferramentas de IA eram visíveis, e em mais duas, hashtags inseridas nas publicações serviam como único indicativo.

O papel dos avatares na disseminação de desinformação

Além da falta de transparência, o estudo concluiu que os avatares de IA frequentemente atuam como vetores de desinformação política. Em 14 dos 18 casos mapeados, o que representa 78% do total, os conteúdos veiculados continham alegações enganosas sobre políticos ou instituições democráticas. Essa prática amplifica a preocupação com a integridade do processo eleitoral e a formação da opinião pública.

As publicações com desinformação circularam majoritariamente no TikTok e no Instagram, com seis casos em cada plataforma. O YouTube registrou três ocorrências, enquanto o X, o Kwai e o Facebook também apresentaram incidentes. Entre os alvos desses conteúdos estavam figuras políticas proeminentes, como o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, o ex-presidente Jair Bolsonaro, e ministros do Supremo Tribunal Federal, como Alexandre de Moraes, Cármen Lúcia e Luís Roberto Barroso.

O ‘efeito Dona Maria’ e a polarização de narrativas digitais

Um dos casos mais emblemáticos citados pelo Observatório é o da influenciadora “Dona Maria”, uma personagem criada artificialmente que ganhou grande repercussão entre 2025 e 2026. Retratada como uma senhora negra e idosa, a “Dona Maria” publicou mais de 400 vídeos, atacando o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e setores da esquerda. O conteúdo motivou uma ação no TSE, apresentada por partidos como PT, PV e PCdoB, que pedem a suspensão dos perfis associados à personagem.

Em resposta, perfis de esquerda que apoiam o presidente Lula criaram uma versão própria da “Dona Maria”. Nesta adaptação, a personagem mantém as mesmas características físicas, mas adota um discurso favorável ao presidente. Em um vídeo publicado em 23 de abril por páginas como Lula Pela Verdade, Comitê Popular Oficial, Brasil Fora da Caverna, Esquerda Brasil 4.0 e Jovem Esquerda Br, a idosa critica a escala 6×1 e a família Bolsonaro.

Outro personagem que alcançou popularidade foi o “Seu Zé da Feira”. Este avatar, com características de um homem idoso e negro, ambientado em uma feira de rua, critica políticos de direita e defende o governo atual. Em um de seus vídeos, ele adverte: “Não vote em políticos da direita e do centrão. PL, PP, Republicanos e União. Não tão nem aí pro povo, são sindicato de patrão”. Diferentemente de outros casos, os posts do “Seu Zé da Feira” são acompanhados por uma marca d’água da ferramenta de geração de imagens Veo 3 e são sinalizados como sintéticos pela plataforma, indicando um nível maior de transparência.

Os pesquisadores alertam que esses casos representam um novo desafio para o ambiente informacional: a criação de personagens inteiros, aparentemente humanos, produzidos artificialmente para influenciar debates políticos e simular opiniões espontâneas nas redes sociais. A transparência no uso de inteligência artificial torna-se, assim, um pilar fundamental para a manutenção de um debate público saudável e democrático.

Redação on-line

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