O Brasil testemunha uma preocupante mudança no cenário da segurança pública, com a violência se interiorizando e facções criminosas expandindo sua influência para cidades de médio e pequeno porte. Este fenômeno, detalhado em estudos do Fórum Brasileiro de Segurança Pública em parceria com o Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada), revela um contraste marcante: enquanto grandes capitais como Fortaleza, São Luís e Goiânia registraram uma redução superior a 60% nas taxas de homicídios entre 2013 e 2023, municípios do interior passaram a concentrar episódios de violência que antes eram predominantemente restritos às metrópoles.
Essa interiorização da criminalidade organizada representa um desafio complexo para as autoridades, exigindo uma reavaliação das estratégias de combate e prevenção. O crime organizado, que antes era visto como um problema localizado, agora demonstra uma capacidade articulada de atuação em escala nacional e até transnacional, impactando diretamente a vida de milhões de brasileiros.
A interiorização da violência e o novo mapa do crime
A análise da segurança pública brasileira aponta para uma reconfiguração geográfica da violência. A diminuição significativa dos índices de homicídio em grandes centros urbanos, embora positiva, é acompanhada por um aumento preocupante em regiões menos populosas. Este movimento sugere que as facções criminosas estão buscando novos territórios para expandir suas operações, aproveitando-se de lacunas na presença estatal e de vulnerabilidades sociais.
Os estudos indicam que essa expansão não se limita apenas à disputa por rotas de tráfico, mas também à imposição de um domínio territorial que afeta diretamente a vida cotidiana das comunidades. A presença do crime organizado em cidades do interior transforma a dinâmica local, alterando padrões de segurança e influenciando diversos aspectos da sociedade.
Estratégias de domínio: como as facções operam
O documentário “Territórios – Sob o Domínio do Crime”, do Globoplay, ilustra como o crime organizado deixou de ser um fenômeno isolado para se tornar uma rede articulada. Sua atuação se baseia em pilares como o domínio de territórios, o uso ostensivo da força armada, a influência dentro do sistema prisional, a penetração em atividades da economia formal e a prática de corrupção em diferentes esferas.
Paulo Renato Soares, um dos repórteres do documentário, destaca a gravidade da dominação armada de territórios, que ele descreve como um problema que subjuga milhões de pessoas. Segundo Soares, as facções impõem suas próprias regras, que incluem o consumo de produtos e serviços controlados pelos traficantes, criando uma economia paralela e um sistema de controle social que desafia a autoridade do Estado.
Cidades estratégicas e a expansão na Amazônia
Diversos municípios brasileiros se tornaram palcos dessa expansão. Rio Claro, no interior de São Paulo, com aproximadamente 200 mil habitantes, é um exemplo de cidade que se transformou em ponto de disputa entre o PCC e o Comando Vermelho. Sua localização estratégica, próxima a grandes rodovias, a torna um corredor vital para o tráfico.
Na Bahia, Juazeiro, a 500 quilômetros da capital Salvador, reflete o mesmo padrão, registrando uma taxa de homicídios de 76,2 por 100 mil habitantes, um índice três vezes superior à média nacional. A situação é ainda mais alarmante na Amazônia Legal, uma região que abrange nove estados, onde a presença do crime organizado já atinge 45% dos municípios, evidenciando a capilaridade e a audácia dessas organizações.
Desafios para o Estado e a resposta institucional
Diante desse avanço, Samira Bueno, diretora-executiva do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, enfatiza a necessidade de o Estado considerar a atuação das facções não apenas sob a ótica da segurança pública, mas também na formulação de políticas mais amplas. Isso inclui áreas como habitação, transporte e até mesmo o processo eleitoral, onde a influência do crime organizado pode distorcer a democracia.
No Rio de Janeiro, por exemplo, o Tribunal Regional Eleitoral (TRE) tem implementado uma força-tarefa específica para conter a influência de grupos criminosos nas eleições, um reconhecimento da complexidade e da abrangência do problema. A resposta estatal precisa ser multifacetada, integrando ações de inteligência, repressão e políticas sociais para desmantelar as redes criminosas e restaurar a autoridade pública. Para mais informações sobre segurança pública no Brasil, consulte o Fórum Brasileiro de Segurança Pública.

