O primeiro debate entre os pré-candidatos à Presidência da República para as eleições de 2026, promovido pela TV Band em parceria com veículos como o Estadão, foi marcado por intensos confrontos e, principalmente, pelas notáveis ausências. Realizado em São Paulo, o evento reuniu Ronaldo Caiado (PSD), Renan Santos (Missão) e Augusto Cury (Avante), que aproveitaram a oportunidade para apresentar suas plataformas e, em diversos momentos, criticar a não participação de outros nomes esperados.
Os púlpitos reservados a Luiz Inácio Lula da Silva (PT), Flávio Bolsonaro (PL) e Romeu Zema (Novo) permaneceram vazios no palco, tornando-se um símbolo das tensões pré-eleitorais. As ausências, em particular as de Lula e Flávio, foram um tema recorrente e alvo de duras críticas por parte dos candidatos presentes, que as qualificaram como “covardia” e um desrespeito ao eleitorado.
A dinâmica do debate foi significativamente influenciada pela falta de três dos seis convidados. Antes mesmo do início oficial, o clima já indicava a polarização e o tom combativo que viriam. Renan Santos, por exemplo, exibiu fraldas com os nomes de Lula e Flávio, em um gesto provocativo que repercutiu. Augusto Cury, por sua vez, chegou a anunciar que não participaria, mas reconsiderou, enquanto integrantes da Unidade Popular (UP) protestavam pela ausência de sua candidata, Samara Martins, que não foi convidada.
Durante os blocos de perguntas e confrontos diretos, os candidatos presentes não hesitaram em direcionar suas críticas aos ausentes. Renan Santos, ao iniciar sua resposta sobre segurança pública entre os púlpitos vazios, chamou Lula e Flávio de “covardes”. Ronaldo Caiado também mencionou as ausências ao abordar a economia, afirmando que eram esperados os “dois pré-candidatos que são também os mais rejeitados no país”. Cury, ao falar sobre educação, dirigiu-se diretamente a Lula, questionando sua ausência diante do “caos” educacional.
A segurança pública foi um dos pilares das discussões. Renan Santos apresentou um plano com três eixos principais: a declaração de estado de defesa e o uso de operações de Garantia da Lei e da Ordem (GLO) em áreas dominadas pelo crime organizado, a construção de “superpresídios” com capacidade para centenas de milhares de vagas e uma maior integração entre os governos federal e estaduais no combate às facções. O candidato ainda propôs intervenção federal em estados que não atuarem efetivamente contra o crime organizado, prometendo uma “guerra” sem precedentes.
Ronaldo Caiado, por sua vez, focou na violência contra a mulher, classificando o feminicídio como uma “grande chaga no país”. Ele defendeu a ampliação das punições para agressores, sugerindo penas de 20 a 40 anos, cumprimento de 90% da pena e confisco de bens em casos de feminicídio, com o patrimônio revertido para a família da vítima. Caiado também citou medidas implementadas em sua gestão em Goiás, como o uso de algemas, tornozeleiras eletrônicas, botão do pânico e inteligência artificial. Augusto Cury, que chegou a convidar Caiado para ser seu Ministro da Segurança, também destacou a gravidade dos números de feminicídio no Brasil.
A situação fiscal e econômica do Brasil foi outro ponto central. Ronaldo Caiado foi questionado sobre o desequilíbrio fiscal, a dívida pública e os juros, e defendeu um “choque de credibilidade” no país. Suas propostas incluíam a contenção de despesas, a redução das taxas de juros e a meta de levar a inflação para a faixa de 3% a 4%.
Augusto Cury, ao discutir programas sociais, defendeu ajustes no Bolsa Família. Embora reconheça a importância do programa, Cury sugeriu que ele fosse reformulado para estimular os beneficiários a aumentar a renda, evitando a perda imediata do benefício para quem conseguir um emprego formal ou abrir uma microempresa. Ele também propôs a divisão do BNDES em dois bancos distintos, um para grandes corporações e outro focado em pequenas e microempresas, além da criação de escolas e agências de empreendedorismo em comunidades e escolas públicas.
A qualidade da educação brasileira foi um tema abordado por Augusto Cury, que criticou o sistema atual como “cartesiano” e “racionalista”, defendendo uma “revolução” que estimule os alunos a questionar e pensar. Cury mencionou a existência de “32 milhões de neurodivergentes” no Brasil e a “intoxicação digital” como desafios, propondo mudanças no ambiente escolar para promover maior inclusão.
Renan Santos, ao abordar a educação, criticou o que chamou de “sabotagem ao ensino fundamental” e defendeu a alfabetização pelo método fônico. Ele também apontou a perda de autoridade dos professores em sala de aula e a má distribuição de recursos, com o país gastando pouco no ensino básico em comparação com nações da OCDE, enquanto financia “universidades públicas caríssimas”. Renan propôs a criação de uma “Lei de Responsabilidade Gerencial” que vincularia recursos a resultados em áreas como educação, saúde e segurança, podendo tornar prefeitos inelegíveis por baixo desempenho. Caiado concordou com a necessidade de responsabilização e citou a integração curricular em Goiás.
Os confrontos diretos entre os candidatos revelaram a intensidade do debate. Renan Santos tentou direcionar uma pergunta a Lula, mas, impedido pelas regras, questionou Cury sobre a “psique” do eleitorado que ainda vota no presidente, mencionando escândalos como o “mensalão” e o “petrolão”. Cury respondeu que o Brasil está “dramaticamente doente, polarizado, radicalizado” e que a ideia de que os brasileiros estão divididos em apenas dois grupos é “mentirosa”.
Na réplica, Renan voltou a atacar Lula, chamando-o de “canalha” e criticando o governo em diversas áreas. Cury, por sua vez, rebateu o tom agressivo de Renan, defendendo que se critiquem as ideias, mas não a pessoa. O debate, organizado pelo Grupo Bandeirantes, Jovem Pan, Gazeta e Estadão Online, demonstrou a complexidade dos temas e a diversidade de propostas apresentadas, mesmo com as ausências que tanto pautaram as discussões. Acesse mais notícias sobre política e eleições no Estadão.
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