A participação feminina na política brasileira ainda enfrenta desafios significativos, conforme revelam dados das eleições de 2022 em São Paulo. Um levantamento detalhado aponta que, na capital paulista, candidatas a deputada federal obtiveram a maioria dos votos nominais em apenas quatro dos mais de dois mil locais de votação. Esse cenário sublinha a persistente disparidade de gênero no ambiente eleitoral, onde a representatividade de mulheres continua aquém de sua proporção na população.
Os resultados, compilados a partir da plataforma ‘Marias do Bairro’ da organização Girl Up Brasil, com base em dados do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), oferecem um panorama sobre o comportamento eleitoral dos paulistanos. A análise, que considerou exclusivamente os votos nominais para o primeiro turno, sem incluir brancos, nulos ou em legenda, destaca a concentração do voto feminino em poucas regiões e a predominância masculina na maioria das urnas.
Em 2022, das 2.048 seções eleitorais da cidade de São Paulo, somente em quatro delas as candidatas a deputada federal conseguiram mais de 50% dos votos nominais. Nos demais locais, a preferência dos eleitores recaiu sobre os candidatos homens. Este dado é particularmente relevante considerando que, das 1.458 candidaturas a deputado federal no estado, 450 eram de mulheres.
Atualmente, a Câmara dos Deputados reflete essa disparidade, com mulheres ocupando apenas cerca de 18% das 513 cadeiras, apesar de representarem mais de 51% da população brasileira. Esse desequilíbrio evidencia barreiras históricas e estruturais que dificultam a ascensão feminina no cenário político nacional.
A análise dos locais de votação revela padrões geográficos e socioeconômicos distintos. Os 20 locais com a maior proporção de votos para candidatas estão predominantemente concentrados em regiões da Zona Oeste de São Paulo, como Pinheiros e Alto de Pinheiros. O Colégio Vera Cruz, na Vila Ida, liderou o ranking com 54,03% dos votos nominais para mulheres, seguido pelo Colégio Santa Cruz (49,19%) e o Colégio Horizontes (49,14%).
Em contraste, os menores percentuais de votos para candidatas foram observados principalmente em Parelheiros e Grajaú, no extremo Sul da capital. No Centro de Detenção Provisória de Pinheiros III, por exemplo, todos os 20 votos nominais foram para candidatos homens. A E.E. Prof. Jesus José Attab, em Parelheiros, registrou apenas 8,35% de votos femininos, enquanto a E.E. Vicentina Aparecida Tamborino, no Jardim Varginha, teve 8,90%.
Os distritos que figuram nos extremos do ranking de votação feminina apresentam perfis socioeconômicos distintos. Regiões como Alto de Pinheiros e Pinheiros, com maior proporção de votos para mulheres, registram remunerações médias mensais significativamente mais altas, de R$ 8.115,83 e R$ 5.945,02, respectivamente. Em Parelheiros e Grajaú, onde o voto feminino foi menor, as médias salariais são de R$ 2.715,41 e R$ 2.555,03.
Além da renda, há diferenças na composição racial e etária da população. Em Pinheiros e Alto de Pinheiros, a proporção de moradores pretos ou pardos é de 11,1% e 8,1%, respectivamente. Já em Parelheiros e Grajaú, essa proporção sobe para 56,6% e 56,8%. A população jovem (0 a 29 anos) também é maior nos distritos da Zona Sul (47,08% em Parelheiros e 45% no Grajaú) em comparação com a Zona Oeste (24,04% em Pinheiros e 25,03% em Alto de Pinheiros).
É importante ressaltar que, embora esses dados revelem correlações, o levantamento não permite estabelecer uma relação causal direta entre as características socioeconômicas e o comportamento eleitoral. Fatores como o perfil das candidatas disponíveis em cada região e a concentração de suas campanhas não foram considerados na análise.
A desigualdade na representação feminina é multifacetada, conforme explica Daniela Costa, gerente de Redes e Advocacy da Girl Up Brasil. Ela destaca que a política, historicamente, não foi concebida para incluir as mulheres, que conquistaram o direito de votar e serem votadas muito depois dos homens, sendo tradicionalmente relegadas ao espaço privado.
A desigualdade se manifesta também dentro dos próprios partidos políticos, que desempenham um papel crucial na formação e no financiamento das candidaturas. Costa aponta que o espaço partidário ainda é predominantemente masculino, e a distribuição de recursos do fundo eleitoral, bem como o recrutamento e treinamento de mulheres, são frequentemente desiguais. Isso limita as chances reais de mulheres serem eleitas e ocuparem cargos de liderança.
Para Daniela Costa, é fundamental ampliar a diversidade das mulheres no Congresso, incluindo perfis que historicamente não acessam esses espaços, como mulheres negras, indígenas, com deficiência, de periferia e jovens. Essa diversidade de experiências pode enriquecer o debate político, trazendo à tona problemas estruturais que foram historicamente negligenciados.
Para tornar esses dados mais acessíveis e promover a conscientização, a Girl Up Brasil desenvolveu a plataforma ‘Marias do Bairro’. A ferramenta permite que qualquer pessoa consulte, de forma simples, a votação de candidatas mulheres para a Câmara dos Deputados e o Senado em cada seção eleitoral, município e estado do país, utilizando microdados do TSE.
A plataforma mostra se uma região específica ficou acima ou abaixo da marca de 50% dos votos para mulheres e permite comparar esses resultados com outras localidades. O objetivo é transformar um dado complexo em um assunto de conversa, incentivando o diálogo sobre a importância de votar em mulheres e as razões por trás dos padrões de votação. Mais informações podem ser encontradas em Girl Up Brasil.
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