O eleitorado brasileiro residente nos Estados Unidos tem registrado um crescimento sem precedentes, consolidando o país como o maior polo de votantes do Brasil no exterior. No entanto, a proximidade das eleições presidenciais de 2026 revela um cenário complexo, onde a empolgação com o aumento da participação se choca com desafios logísticos e, principalmente, com o temor crescente das operações de controle de imigração, especialmente em cidades como Nova York. Este panorama exige uma reavaliação das estratégias para garantir que o direito ao voto seja plenamente exercido por essa parcela significativa da população brasileira.
A expansão do número de eleitores aptos a votar fora do país reflete uma diáspora crescente e um interesse contínuo nos rumos políticos do Brasil. Contudo, as autoridades eleitorais e consulares enfrentam a tarefa de adaptar a infraestrutura de votação a uma realidade que inclui não apenas a distância geográfica, mas também as preocupações com a segurança e a privacidade dos imigrantes em um ambiente de políticas migratórias mais rigorosas. A situação em Nova York, com a mudança do local de votação, ilustra bem essa complexidade.
O eleitorado brasileiro no exterior tem demonstrado um crescimento notável, mais do que quadruplicando desde 2010, quando contava com cerca de 200 mil votantes. Atualmente, o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) registra 918,9 mil brasileiros aptos a votar fora do país para as eleições de 2026, um aumento de 31,8% em comparação com os 697,1 mil de 2022. Os Estados Unidos lideram esse movimento, concentrando o maior colégio eleitoral brasileiro fora do Brasil.
Com aproximadamente 265 mil eleitores registrados, os EUA viram um salto de cerca de 45% em relação aos quase 183 mil de 2022. Essa concentração de votantes está distribuída por diversos postos consulares, com Boston reunindo o maior número, 53,4 mil, seguida por Miami, com 40.109, e Nova York, que registra 39.026 eleitores. Para atender a essa demanda crescente, a Justiça Eleitoral e o Itamaraty têm ampliado a estrutura, com o TSE aprovando a transferência de recursos para locação de imóveis no exterior e o Itamaraty adicionando 66 endereços para votação globalmente, sendo 14 deles nos Estados Unidos.
Em Nova York, o eleitorado cresceu significativamente, passando de cerca de 28 mil brasileiros em 2022 para os atuais 39.026. Contudo, a organização da votação para 2026 trouxe uma mudança que gerou controvérsia: a transferência do local de votação de Manhattan para uma instituição de ensino no Queens. Essa decisão provocou reclamações entre parte dos eleitores, que apontam para o aumento da distância e a dificuldade de acesso ao novo endereço.
O novo local no Queens está a aproximadamente 16 quilômetros da sede do Consulado-Geral do Brasil em Manhattan e carece de acesso direto ao metrô, complicando o deslocamento. A jurisdição consular de Nova York abrange também brasileiros que residem em Nova Jersey e na região da Filadélfia, que já enfrentam longas viagens para exercer seu direito ao voto. Um exemplo é Amanda Lourenço, moradora da Pensilvânia, que relata um acréscimo de pelo menos meia hora em seu percurso, o que a desanima, apesar de considerar o voto importante. A mobilização de brasileiros pedindo o retorno da votação para Manhattan reflete a insatisfação com a nova logística.
A escolha do Queens como novo local de votação não se baseou apenas em questões logísticas. O distrito é conhecido por sua alta concentração de imigrantes e tem sido alvo frequente de operações do Serviço de Imigração e Alfândega dos Estados Unidos (ICE), especialmente em meio ao endurecimento da política migratória. O medo de abordagens por agentes do ICE pesou na decisão das autoridades brasileiras, que buscaram um local que oferecesse maior segurança aos eleitores.
O complexo educacional no Queens permite que as filas sejam organizadas dentro de suas instalações, evitando que milhares de brasileiros aguardem nas calçadas, onde estariam mais expostos. A Secretaria de Relações Internacionais da Prefeitura de Nova York e a polícia local colaboraram no mapeamento de alternativas consideradas mais seguras, um indicativo da seriedade da preocupação. O mesmo complexo já foi utilizado pelo Consulado-Geral do Peru para suas eleições presidenciais, demonstrando a viabilidade da solução. Essa preocupação é amplificada pelo fato de que, das estimadas 2 milhões de brasileiros vivendo nos EUA, apenas cerca de 265 mil estão registrados para votar, indicando uma vasta comunidade que pode ser afetada por tais operações.
Apesar do crescimento no número de eleitores cadastrados, a efetiva participação nas urnas continua sendo um desafio significativo para as eleições no exterior. Em 2022, a abstenção entre brasileiros fora do país atingiu 63,36% no primeiro turno e 61,44% no segundo, números que superam a média nacional. O voto é obrigatório para eleitores alfabetizados entre 18 e 70 anos, mas a justificativa de ausência é comum.
Nas últimas eleições, o eleitorado brasileiro nos Estados Unidos demonstrou uma clara preferência por Jair Bolsonaro, que obteve cerca de 65% dos votos válidos no país, com Miami sendo um de seus principais redutos (81,2%). Luiz Inácio Lula da Silva venceu em apenas três dos dez postos consulares norte-americanos, com seu melhor desempenho em São Francisco (60,1%). Para 2026, as autoridades brasileiras enfrentam um duplo desafio: acomodar um eleitorado ainda maior e converter o aumento dos registros em uma participação mais efetiva, tudo isso em um contexto migratório que se mostra consideravelmente mais tenso e complexo do que o de quatro anos atrás.
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