Alto Tietê

Quando a violência vira sistema

A violência contra a mulher nem sempre começa com um episódio que possa ser facilmente nomeado. Muitas vezes, ela vai se instalando aos poucos, na rotina, até que a relação inteira passe a funcionar pela lógica do medo, do controle e da contenção. Quando a mulher já precisa medir palavras, antecipar reações, justificar o que sente e diminuir a si mesma para evitar conflito, já não se trata de um ato isolado. A violência, nesse ponto, virou sistema.

Esse processo costuma ser ainda mais perverso porque nem sempre é reconhecido de imediato por quem o vive. Há violências que não chegam como ruptura brusca, mas como desgaste contínuo. Aparecem em ironias humilhantes, vigilância, desqualificação emocional, ciúme tratado como prova de amor e controle disfarçado de cuidado. Vistas de fora, essas situações podem parecer pequenas. Mas, na prática, elas vão corroendo a liberdade da mulher e embaralhando sua confiança na própria percepção.

Também é importante evitar leituras simplistas sobre o agressor. Nem todo caso cabe em um perfil único, fechado e previsível. O que costuma aparecer é uma dinâmica marcada por necessidade de controle, dificuldade de lidar com frustração, sentimento de posse e incômodo diante da autonomia feminina. Ainda assim, reduzir tudo a um traço individual empobrece a análise. Existe uma cultura que, há muito tempo, naturaliza o controle, romantiza o ciúme e ensina muitas mulheres a suportar violências que nem sempre são nomeadas como tal.

Por isso, a romantização do ciúme segue sendo tão perigosa, inclusive entre as novas gerações. Quando o ciúme é tratado como intensidade afetiva, abre-se espaço para normalizar invasão de privacidade, vigilância constante e restrições que passam a ser vistas como cuidado. O que deveria acender um alerta acaba sendo confundido com amor. E é justamente aí que muitas dinâmicas abusivas começam a ganhar legitimidade.

A violência psicológica pode ser profundamente destrutiva porque atinge o centro da experiência subjetiva. Ela não machuca apenas no momento em que acontece. Ela altera a forma como a mulher interpreta o que vive, ocupa os espaços e até nomeia a própria dor. Muitas passam a duvidar de si, da própria memória, da própria leitura dos fatos. Por isso, reconhecer essas formas menos visíveis de violência é essencial. Nem toda violência deixa marcas no corpo, mas muitas deixam uma mulher inteira vivendo em estado de encolhimento.

Também é importante lembrar que a violência contra a mulher não se restringe ao que acontece dentro de uma relação afetiva. Ela também aparece no assédio cotidiano, na importunação, no medo de andar sozinha, no constrangimento de ser abordada na rua, no cálculo constante que muitas mulheres fazem antes de sair, passar por certos lugares ou simplesmente existir em público. Aos poucos, esse estado de alerta vai sendo naturalizado, como se fosse parte inevitável da vida. Mas não é.

Quando uma mulher precisa adaptar seu corpo, seus trajetos, sua roupa, sua expressão ou sua liberdade para tentar evitar invasões, insistências e ameaças, o que se revela é uma violência que ultrapassa o campo íntimo e expõe um problema social muito mais profundo: a permanência de uma cultura que ainda trata o corpo feminino como algo disponível.

Canal delas

O Brasil registrou 1.568 feminicídios em 2025, o maior número já contabilizado no país, segundo o Fórum Brasileiro de Segurança Pública, uma média de quatro mulheres assassinadas por dia em contextos de misoginia e violência doméstica. Diante desse cenário, a Hapvida, maior empresa de saúde da América Latina, mantém, em parceria com o Instituto Justiça de Saia por meio do Projeto Justiceiras, o Canal Delas, um sistema sigiloso e seguro voltado à denúncia e ao acolhimento de vítimas. Desde 2022, o canal já registrou mais de 360 acionamentos.

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