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Setores estratégicos do agronegócio brasileiro estão em intensa mobilização em Washington, nos Estados Unidos, para reverter uma nova rodada de ameaças tarifárias propostas por Donald Trump. Em uma audiência pública crucial, empresas e associações ligadas à exportação de café solúvel, pescados e mel buscam defender seus produtos, que, embora não representem os maiores volumes de exportação para o mercado americano, foram incluídos na ofensiva comercial.
A iniciativa de Trump é vista por especialistas como parte de uma estratégia mais ampla de negociação, visando acordos em diversas frentes, como minerais críticos, terras raras, o sistema PIX e questões relacionadas a grandes empresas de tecnologia. A capacidade de diálogo do Brasil, já demonstrada em situações tarifárias anteriores, é considerada um fator positivo para a busca de uma solução.
As propostas tarifárias de Donald Trump surgiram em duas etapas. Em 1º de junho, foram anunciadas tarifas de 25% sobre mercadorias brasileiras, após investigações que abordaram temas como desmatamento ilegal, pirataria e o sistema de pagamentos PIX. No dia seguinte, uma nova medida impôs taxas adicionais de 12,5% para 60 países, incluindo o Brasil, sob a alegação de falhas no combate ao trabalho forçado.
Apesar da abrangência das propostas, uma extensa lista de exceções foi apresentada, buscando evitar um aumento generalizado de preços no mercado americano. Curiosamente, a carne bovina, um dos principais produtos brasileiros exportados para os EUA, foi incluída na lista, mesmo sendo alvo de investigações sobre concentração de mercado e impacto nos preços por frigoríficos brasileiros que operam em território americano.
A defesa do mel brasileiro em Washington é robusta, contando com o apoio de importadores americanos e representantes brasileiros, como a Associação Brasileira de Exportadores de Mel e a Lambertucci Trade Solution. O principal argumento é a insubstituibilidade do mel brasileiro no mercado dos EUA, especialmente o orgânico.
O Brasil se destaca como o maior fornecedor de mel para os Estados Unidos, sendo responsável por cerca de 83% do mel orgânico importado e 75% do mel convencional. A defesa ressalta que a apicultura americana foca na polinização e no mel convencional, sem competir com a produção orgânica brasileira. A imposição de tarifas, portanto, resultaria em aumento de preços e potencial escassez de mel orgânico para o consumidor americano, sem uma produção doméstica capaz de suprir a demanda. A conversão de áreas de produção convencional para orgânica exige um longo período de transição, tornando a substituição inviável no curto prazo. Além disso, a defesa contará com depoimentos de importadores americanos, que alertarão sobre os prejuízos e a perda de empregos nos EUA. Joelma Lambertucci de Brito, diretora da Lambertucci Trade Solution, destacou o desconhecimento do governo americano sobre a importância do mel brasileiro, enfatizando a necessidade de um trabalho contínuo de lobby.
Entre os diversos tipos de café, o solúvel foi o único a ficar de fora da lista de isenções das tarifas propostas, enquanto o café em grão, torrado e moído foram protegidos. A Associação Brasileira da Indústria de Café Solúvel (Abics), com o apoio da BMJ Consultores Associados, lidera a defesa do setor.
Os argumentos centram-se na dependência dos EUA em relação ao café solúvel brasileiro. Os Estados Unidos produzem apenas 6% do café solúvel que consomem, importando a maior parte, principalmente do Brasil e do México. Em 2024, o Brasil foi responsável por 37% de todo o café solúvel importado pelos americanos. A aplicação de tarifas, portanto, elevaria significativamente os preços para o consumidor final e impactaria negativamente a economia americana, uma vez que parte da agregação de valor, como o envase e a distribuição, é realizada nos EUA, gerando empregos. Aguinaldo Lima, diretor-executivo da Abics, considera ilógica a taxação do café solúvel, especialmente porque o Brasil não é concorrente direto dos produtores americanos neste segmento. A entidade levanta a hipótese de falha na classificação de códigos ou uma tentativa de reindustrialização do setor nos EUA, embora a instalação de uma nova indústria leve anos e ainda dependeria da importação de matéria-prima. Para mais informações sobre o comércio internacional, consulte o Escritório de Comércio dos EUA (USTR).
O setor de pescados brasileiro enfrenta a possibilidade de uma tarifa de até 37,5% nos Estados Unidos. A defesa está a cargo da National Fisheries Institute (NFI), a maior associação de pescados dos EUA, conforme informou Eduardo Lobo, presidente da Associação Brasileira das Indústrias de Pescado (Abipesca). Os argumentos apresentados são semelhantes aos utilizados no ano anterior, quando o setor enfrentou tarifas de 50%.
A defesa enfatiza que o Brasil não compete com a produção pesqueira dos EUA, sendo um fornecedor estratégico, especialmente para tilápia, ajudando os americanos a reduzir a dependência da China. Além disso, a produção brasileira segue rigorosos padrões sanitários, trabalhistas e ambientais, garantindo que não há trabalho infantil ou escravo. A pesca no Brasil é predominantemente artesanal, realizada por pequenas embarcações familiares, o que resulta em um baixo impacto ambiental em comparação com a pesca industrial em larga escala. Bob DeHaan, diretor jurídico da NFI, já havia alertado o governo americano em maio sobre o impacto inflacionário das tarifas para os consumidores, destacando que os estoques pesqueiros dos EUA já estão no limite sustentável e a importação é essencial para suprir a demanda. Embora o Brasil não seja o principal fornecedor de pescados para os EUA, respondendo por cerca de 5% das importações, sua importância estratégica tem crescido como alternativa aos fornecedores chineses.
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