Mogi das Cruzes

Urbanização descontrolada causa invasão de formigas-de-fogo pelo Brasil e risco à saúde, alerta pesquisa da UMC

Um estudo conduzido por pesquisadores da Universidade de Mogi das Cruzes (UMC) alerta para a perigosa expansão das formigas-de-fogo que vem ocorrendo no território brasileiro, com riscos para a saúde pública e para a biodiversidade. A pesquisa acompanhou o movimento silencioso de dispersão de duas espécies que vem ganhando as cidades nas últimas décadas como consequência da urbanização descontrolada.

As espécies das formigas estudadas são a Solenopsis saevissima e a Solenopsis invicta. A primeira, nativa das áreas de florestas da Amazônia, ganhou terreno ao longo dos anos e atualmente pode ser encontrada em 16 estados, entre eles Rio Grande do Norte, Alagoas e Espírito Santo, locais em que foram registradas recentemente.

Já a invicta, originalmente concentrada mais nas áreas alagadas do Pantanal, avançou para 11 estados, sendo recentemente vista no Rio de Janeiro, Piauí e em Sergipe. Essa espécie é conhecida por suas picadas bastante dolorosas, que costumam formar bolhas e causar fortes reações alérgicas – daí a preocupação com a saúde pública ao proliferar e circular em centros urbanos.

O estudo, publicado no periódico científico Biological Invasions (doi.org/10.1007/s10530-025-03720-3), também reuniu biólogos e pesquisadores do Museu de Zoologia da Universidade de São Paulo (USP), do Museu Paraense Emílio Goeldi, da UNESP de Rio Claro e do Kompetenzzentrum für Biodiversität & Integrative Taxonomie der Insekten – Institut für Biologie, Universität Hohenheim, da Alemanha. Ele integra um projeto financiado pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp – Processo nº 2023/17547-4).

“Este apoio foi fundamental para que os pesquisadores realizassem visitas às coleções biológicas e efetuassem coletas em localidades sem registros prévios de espécies de formigas-de-fogo, bem como pudessem realizar as análises moleculares para a confirmação das espécies”, destaca a Profa. Dra. Maria Santina de Castro Morini, coordenadora do Programa de Pós-Graduação em Biotecnologia da UMC e do estudo.

Décadas de análises
A constatação da invasão dessas espécies de formigas-de-fogo foi possível após o grupo de pesquisadores analisar mais de quatro mil registros, entre levantamentos de campos e outros dados de coleções biológicas de diferentes estados brasileiros num período que abrange 124 anos.

“Revisamos e analisamos informações do ano de 1900 a 2024 e separamos as informações em cinco décadas, para entender e reconstruir de forma detalhada a trajetória de dispersão dessas espécies. Assim, pudemos identificar padrões relacionados às transformações ambientais, a partir da utilização de coordenadas geográficas para a geração de mapas e modelos que nos deram os padrões de expansão de ambas as espécies, bem como sua relação com a fragmentação da paisagem ao longo do tempo”, explica Victor Hideki Nagatani, pós-graduando da UMC e um dos autores do estudo.

Nagatani destaca que os resultados das análises apontam que fatores como a urbanização e a fragmentação de habitats naturais tiveram e seguem tendo papel central nesse processo: “Essas mudanças no uso do solo criam condições favoráveis para a expansão das formigas, que apresentam elevada capacidade de adaptação e competição com espécies nativas, causando impactos negativos à biodiversidade, para além do risco à saúde pública, provocado pelas ferroadas e reações severas em humanos”.

Os achados da pesquisa dão mais um importante sinal de alerta sobre como as ações humanas influenciam diretamente a dinâmica dos ecossistemas, além de reforçarem a importância do monitoramento de espécies invasoras, como as formigas-de-fogo.

“Ao integrar dados históricos e abordagens científicas contemporâneas, o estudo contribui significativamente para o avanço do conhecimento em biotecnologia, biodiversidade e conservação ambiental, além de subsidiar estratégias para a construção de ambientes mais sustentáveis e resilientes”, conclui Nagatani.

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