- Continua depois da publicidade -

Diplomacia em xeque: Brasil convoca EUA por afastamento de delegado da Polícia Federal

A relação diplomática entre Brasil e Estados Unidos vivencia um momento de tensão após o governo brasileiro convocar a encarregada de Negócios interina da Embaixada dos EUA em Brasília para prestar esclarecimentos. O motivo da convocação foi o pedido americano para que um delegado da Polícia Federal (PF) em missão nos Estados Unidos deixe o país. O incidente gerou reações no alto escalão do governo brasileiro, que não descarta a possibilidade de adotar medidas de reciprocidade.

A situação sublinha a complexidade das parcerias internacionais, especialmente quando envolvem questões de segurança e imigração. A medida americana, divulgada pelo Escritório para Assuntos do Hemisfério Ocidental do governo americano, levantou questionamentos sobre os termos de cooperação e a soberania de atuação de agentes em território estrangeiro, provocando uma imediata resposta do Ministério das Relações Exteriores brasileiro.

Convocação e Esclarecimentos na Diplomacia

Nesta terça-feira, 21 de maio, a encarregada de Negócios interina da Embaixada dos Estados Unidos em Brasília, Kimberly Kelly, foi formalmente convocada pelo Ministério das Relações Exteriores (MRE) para uma reunião. O encontro teve como pauta o pedido do governo de Donald Trump para que o delegado da Polícia Federal, Marcelo Ivo de Carvalho, que atuava junto ao Serviço de Imigração e Controle de Aduanas dos Estados Unidos (ICE), deixe o país.

A reunião, que durou aproximadamente uma hora, ocorreu entre Kimberly Kelly e Christiano Figueiroa, o atual diretor do Departamento de América do Norte do MRE. Após o encontro, a Embaixada dos Estados Unidos no Brasil informou que não comentaria as conversas diplomáticas privadas, uma postura que reflete a sensibilidade do tema. Fontes da diplomacia brasileira confirmaram a realização da reunião e a pauta discutida.

Reação Brasileira e a Possibilidade de Reciprocidade

A notícia do pedido de afastamento do delegado brasileiro gerou uma forte reação por parte do governo do Brasil. Durante uma viagem à Europa, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva foi questionado sobre o tema e indicou que o governo buscaria entender os detalhes da situação para então decidir a melhor forma de reagir.

O presidente chegou a mencionar a possibilidade de aplicar o princípio da reciprocidade, uma prática diplomática em que um país adota uma medida equivalente em resposta a uma ação de outro. Ele enfatizou que o Brasil não aceitará o que considerou uma “ingerência e esse abuso de autoridade que algumas pessoas americanas querem ter com relação ao Brasil”. Posteriormente, o ministro das Relações Exteriores Mauro Vieira também se manifestou, afirmando que a notícia “não tem fundamento” e que o Brasil aguardava esclarecimentos das autoridades americanas, ressaltando que o delegado trabalhava em conjunto com elas em Miami e que sua função era de conhecimento de todos.

O Cerne da Controvérsia: O Pedido Americano

O governo dos Estados Unidos, sem citar nomes, publicou em uma rede social uma declaração sobre o caso. O texto afirmava que uma autoridade brasileira teria tentado “contornar pedidos formais de extradição” para promover “perseguições políticas” em território americano. A declaração ressaltava que “Nenhum estrangeiro pode manipular nosso sistema de imigração para contornar pedidos formais de extradição e estender perseguições políticas ao território dos Estados Unidos. Hoje, pedimos que o funcionário brasileiro em questão deixe o país por tentar fazer isso”.

Marcelo Ivo de Carvalho foi designado para atuar em Miami em março de 2023, em uma missão de dois anos junto ao ICE. Entre suas responsabilidades estava a identificação e prisão de foragidos da Justiça brasileira nos Estados Unidos. Sua permanência na missão havia sido prorrogada por portaria em março de 2025 até agosto deste ano, evidenciando a continuidade de sua atuação até o recente pedido de afastamento.

Contexto da Atuação e a Substituição do Delegado

O pedido de afastamento do delegado ocorre em um cenário que incluiu a detenção do ex-deputado Ramagem pelo ICE em Orlando, na Flórida, no dia 13 de abril. A Polícia Federal havia informado que a prisão se deu por questões migratórias, e o ex-deputado foi solto dois dias depois, agradecendo publicamente à cúpula do governo Donald Trump pela liberação administrativa.

Curiosamente, a Polícia Federal já havia nomeado uma substituta para Marcelo Ivo de Carvalho antes mesmo da declaração do governo norte-americano. A delegada Tatiana Alves Torres assumirá a função de oficial de ligação junto ao ICE em Miami. Sua nomeação foi publicada no Diário Oficial da União em 17 de março, no mês passado. Tatiana Alves Torres, delegada da PF desde 2002, possui vasta experiência em diversas áreas, incluindo crimes ambientais, financeiros, crime organizado e migração, além de formações internacionais, como curso na National Defense University em Washington em 2022 e o Programa de Treinamento Policial da Interpol em Lyon em 2008. Ela ocupava o cargo de coordenadora-geral de Gestão de Processos da Polícia Federal e já foi superintendente da PF em Minas Gerais em 2023, sendo fluente em inglês e francês e com conhecimento intermediário de espanhol.

Para mais informações sobre as relações exteriores do Brasil, visite o site do Ministério das Relações Exteriores.

InícioDestaquesDiplomacia em xeque: Brasil convoca EUA por afastamento de delegado da Polícia...