A Polícia Federal (PF) deflagrou recentemente uma nova fase da Operação Compliance Zero, que investiga um vultoso esquema de fraudes, corrupção, lavagem de dinheiro e obstrução da Justiça, com conexões a uma instituição financeira. Entre os alvos da operação, destacam-se figuras públicas e empresariais, incluindo o senador Jaques Wagner (PT-BA) e o banqueiro Augusto Ferreira Lima, proprietário do Banco Pleno. A instituição, que teve sua liquidação extrajudicial decretada pelo Banco Central (BC) em um período recente, torna-se um ponto central nas apurações.
A trajetória do Banco Pleno, que pertencia ao grupo Banco Master e foi vendido a Augusto Lima, ex-sócio de Daniel Vorcaro, é marcada por uma série de mudanças de controle, tentativas de reposicionamento estratégico e instabilidade operacional. A liquidação pelo BC encerra um ciclo de dificuldades e desafios que culminaram na intervenção regulatória, enquanto a investigação da PF adiciona uma camada de complexidade ao cenário.
A Operação Compliance Zero e seus desdobramentos
A nona fase da Operação Compliance Zero, conduzida pela Polícia Federal, visa desarticular um suposto esquema que movimentou valores significativos por meio de atividades ilícitas. As investigações abrangem crimes como corrupção, lavagem de dinheiro e obstrução da Justiça, apontando para uma rede complexa de envolvimentos.
A inclusão do Banco Pleno e de seus controladores entre os alvos da operação sublinha a gravidade das acusações. A PF busca esclarecer as conexões da instituição financeira com o alegado esquema, especialmente após a decretação de sua liquidação pelo Banco Central, que ocorreu em um período anterior à deflagração desta fase da operação.
A complexa trajetória do Banco Pleno
A história do Banco Pleno remonta ao Banco Indusval & Partners (BI&P), fundado em 1967, que inicialmente focava no crédito corporativo e no financiamento do agronegócio. Ao longo dos anos, a instituição enfrentou dificuldades operacionais e resultados financeiros pressionados, o que levou a diversas reorganizações societárias em busca de estabilidade.
Em 2019, sob a gestão do empresário Roberto de Rezende Barbosa, o banco foi renomeado para Banco Voiter. Essa mudança estratégica visava modernizar a estrutura e apostar em soluções digitais, mas não foi suficiente para consolidar o negócio e garantir sua sustentabilidade a longo prazo. Diante da persistência dos desafios, os controladores iniciaram a busca por potenciais compradores.
Tentativas de venda e a aquisição pelo Grupo Master
A busca por um novo controlador levou o banco a diversas negociações. Em 2023, houve tratativas para uma possível venda à Capital Consig, que previa um aporte financeiro considerável e a transferência do controle. Contudo, essa operação não foi adiante, abrindo caminho para conversas com o Banco Master.
No início do ano seguinte, os então controladores do Voiter anunciaram negociações com Daniel Vorcaro, visando a transferência de controle e a incorporação de áreas estratégicas ao conglomerado do Master. Pouco tempo depois, o Banco Central autorizou a transferência do controle para Augusto Ferreira Lima, ex-sócio de Vorcaro, resultando na criação do Banco Pleno.
Disputas judiciais e desafios de liquidez
Após a aquisição pelo grupo Master, a família Rezende Barbosa, antiga controladora, iniciou uma disputa judicial contra o conglomerado e seus gestores. O litígio girava em torno de uma debênture de valor substancial emitida pela controladora do grupo, com alegações de não pagamento de parcelas acordadas.
Apesar de um aditivo contratual, os valores continuaram sem quitação, levando a família a acionar a Justiça. Embora a causa envolvesse uma quantia expressiva, o processo foi posteriormente encerrado por meio de um acordo homologado, pouco antes da intervenção do Banco Central no grupo. Paralelamente, o Banco Pleno enfrentava sérios problemas de liquidez, mantendo uma forte dependência de captação por meio de depósitos a prazo, como Certificados de Depósito Bancário (CDBs). A percepção de risco crescente no mercado levou à negociação desses títulos com taxas elevadas, indicando uma deterioração da confiança dos investidores e vendas forçadas. O banco possuía uma participação reduzida no sistema financeiro nacional, tanto em termos de ativos quanto de captações, o que o tornava mais vulnerável a crises de confiança.
A intervenção e liquidação pelo Banco Central
A aprovação da operação de venda do banco veio acompanhada de exigências regulatórias, incluindo a apresentação de um plano para mitigar eventuais problemas de liquidez. No entanto, a situação econômico-financeira da instituição continuou a se agravar, culminando na incapacidade de cumprir suas obrigações diárias.
O Banco Central, em sua função de autoridade reguladora, decretou a liquidação extrajudicial do Banco Pleno. A decisão foi fundamentada no comprometimento da situação de liquidez da instituição, bem como na infração de normas que regem sua atividade e na inobservância de determinações do próprio BC. A medida visa proteger os interesses dos credores e a estabilidade do sistema financeiro.
Para mais informações sobre regulamentação financeira, acesse o site do Banco Central do Brasil.

