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Investigação da PF detalha supostas vantagens indevidas recebidas por Jaques Wagner

A Polícia Federal (PF) deflagrou a 9ª fase da Operação Compliance Zero, que tem como um dos alvos o senador Jaques Wagner (PT-BA). A ação, autorizada pelo ministro André Mendonça do Supremo Tribunal Federal (STF), baseia-se em uma investigação que aponta uma série de vantagens indevidas que o parlamentar teria recebido. Essas supostas benesses estariam ligadas a uma atuação política no Congresso Nacional em favor de um esquema bilionário de fraudes e corrupção envolvendo o Banco Master.

A apuração da PF detalha diversos pontos que fundamentaram a operação, incluindo a aquisição de um imóvel de luxo, a realização de viagens internacionais e nacionais, repasses financeiros e até mesmo a compra de ingressos para eventos de grande porte. O foco central da investigação é a relação de proximidade entre o senador e o ex-banqueiro Augusto Lima, apontado como um aliado estratégico do dono do Banco Master, Daniel Vorcaro.

Relação Próxima e Comunicação Sob Suspeita

A Polícia Federal destaca a antiga e próxima relação entre Jaques Wagner e Augusto Ferreira Lima, caracterizada por um elevado grau de confiança pessoal. Segundo a autoridade policial, essa circunstância teria criado um ambiente propício para tratativas reservadas, visando à defesa de interesses privados do Banco Master. A decisão do ministro Mendonça ressalta que a PF aponta para a utilização de chamadas de voz, mensagens temporárias e outras comunicações de baixa rastreabilidade entre os investigados, o que, em juízo preliminar, reforça o risco de perecimento ou ocultação de provas.

O senador, por sua vez, negou em entrevista ter qualquer relação com Daniel Vorcaro. Ele também afirmou que o dinheiro apreendido em seu endereço em Brasília se refere a diárias pagas pelo Senado por viagens parlamentares. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) teria prestado solidariedade ao senador após a operação.

Benefícios Suspeitos: Imóveis, Viagens e Entretenimento

Entre as vantagens indevidas investigadas, a PF aponta a compra de um apartamento de luxo em Salvador. O imóvel, ainda em construção com previsão de entrega para setembro de 2026, foi adquirido pela Epítome S.A., com recursos provenientes de fundos vinculados ao Banco Master. As investigações indicam que o senador teria encaminhado a Augusto Lima os dados do empreendimento, e este acionou Valério Marega Júnior para operacionalizar a aquisição. As tratativas para a compra teriam continuado mesmo após a primeira fase da Operação Compliance Zero.

Outro ponto da investigação envolve uma viagem à Ilha da Paixão, em Candeias, Região Metropolitana de Salvador, apontada como propriedade de Augusto Lima. Mensagens e áudios extraídos do celular do banqueiro indicam que ele teria colocado uma aeronave particular à disposição do senador e seus familiares para um encontro no local entre os dias 11 e 13 de outubro de 2023. Para viabilizar o deslocamento, o empresário teria encaminhado ao senador o prefixo da aeronave e o horário previsto para o voo.

A PF também investiga a aquisição de ingressos para shows da cantora Taylor Swift. Segundo a apuração, bilhetes para o show de 25 de novembro de 2023, em São Paulo, na turnê “The Eras Tour”, foram comprados por R$ 63.339, por orientação de Augusto Ferreira Lima. Os ingressos teriam sido destinados a familiares do parlamentar. A decisão de Mendonça menciona ainda um show em Los Angeles, em agosto de 2023, mas não esclarece se também foram adquiridos ingressos para essa apresentação.

Repasses Financeiros e Dinheiro Apreendido na Investigação

A investigação da Polícia Federal detalha um repasse de R$ 3,5 milhões que não teria sido feito diretamente ao senador. Este montante seria fruto de uma transferência bancária da empresa “PKL One Participações S.A.”, dirigida por uma prima de Augusto Lima e ligada ao grupo do Banco Master/Credcesta, para a “BN Financeira Ltda.”, empresa vinculada ao núcleo familiar de Jaques Wagner. Uma mensagem encontrada no celular de Augusto Lima mostra o enteado de Wagner, Eduardo Mendonça Sodré Martins, cobrando valores, afirmando que “amanhã vence os boletos e são altos”. Augusto Lima teria vinculado a dificuldade financeira ao insucesso de uma operação entre o Banco Master e o BRB.

A PF menciona que a BN Financeira teria sido constituída como microempresa com capital social reduzido e aparente baixa capacidade operacional, mas recebeu valores expressivos em supostos contratos com o Banco Master ou empresas relacionadas. Além disso, a Polícia Federal apreendeu US$ 49 mil em espécie (equivalente a R$ 250 mil) em um endereço em Brasília ligado ao senador. Jaques Wagner declarou que o dinheiro provém de diárias pagas pelo Senado em razão de suas viagens internacionais como parlamentar, totalizando aproximadamente US$ 70 mil desde 2019, além de compras de moeda estrangeira via Banco do Brasil.

Atuação Política em Favor de Interesses Financeiros

A PF investiga se o senador Jaques Wagner atuou diretamente em favor de projetos de interesse do grupo financeiro. Entre as medidas citadas estão a chamada “Emenda Master” e uma proposta legislativa que visava ampliar o limite do crédito consignado, setor no qual o grupo de Daniel Vorcaro e Augusto Lima possui forte atuação por meio do Credcesta. O Credcesta é um cartão de benefício consignado ofertado a servidores públicos, aposentados e pensionistas, com pagamento descontado diretamente da folha.

Os temas que o senador teria tratado com Augusto Lima incluem a elevação da margem consignável para trabalhadores CLT, aposentados e pensionistas do RGPS, além de autorizar empréstimos para beneficiários do BPC e outros programas federais. Também está sob análise a tentativa de aprovação da PEC nº 65/2023, com repercussões sobre o limite de cobertura do Fundo Garantidor de Créditos (FGC), e a atuação parlamentar voltada à fiscalização e controle da operação de potencial aquisição do Banco Master pelo Banco de Brasília (BRB). A Emenda nº 11 à PEC 65/2023, conhecida como Emenda Master, apresentada pelo senador Ciro Nogueira (PP-PI), propunha mudanças no funcionamento do FGC, mecanismo que protege correntistas e investidores em caso de quebra de instituições financeiras.

Contexto da Operação Compliance Zero

A Operação Compliance Zero é uma investigação da Polícia Federal que apura um suposto esquema de fraudes financeiras envolvendo o Banco Master e seu presidente, Daniel Vorcaro. A primeira fase da operação foi deflagrada em novembro de 2025, após indícios de que o banco emitiu títulos de investimento sem garantias suficientes, com o objetivo de atrair clientes com promessas de rentabilidade acima da média do mercado. Na ocasião, Vorcaro foi preso, e a PF estimou um prejuízo potencial de até R$ 12 bilhões.

Ao longo das fases seguintes, a investigação foi ampliada para incluir suspeitas de lavagem de dinheiro, ocultação de patrimônio, intimidação de adversários, espionagem, uso indevido de informações sigilosas e corrupção. A PF também investiga aportes bilionários feitos pelo Banco de Brasília (BRB) no Master e supostos repasses a agentes políticos. Nas fases mais recentes, a operação atingiu familiares e aliados de Vorcaro, além de autoridades públicas, culminando agora na 9ª fase com o senador Jaques Wagner como um dos alvos.

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