A disputa pelo governo de Pernambuco se transformou em um campo de batalha digital intenso, onde a performance nas redes sociais se mostra cada vez mais decisiva para o cenário eleitoral. A governadora Raquel Lyra (PSD), que busca a reeleição, tem demonstrado uma ascensão notável no ambiente online, desafiando a hegemonia que antes era atribuída ao ex-prefeito do Recife, João Campos (PSB), e impactando diretamente as pesquisas de intenção de voto no estado.
Essa “guerra digital” não se limita apenas a números de seguidores e engajamento, mas também envolve acusações de ataques coordenados e uso de “milícias digitais”, elevando a temperatura da campanha. O confronto online reflete uma mudança estratégica na comunicação política, com ambos os lados adaptando suas abordagens para capturar a atenção e o apoio do eleitorado pernambucano.
A ascensão digital da governadora e o desafio do ex-prefeito
Raquel Lyra tem consolidado sua presença nas redes sociais com uma estratégia que enfatiza a entrega de resultados e uma imagem pessoal dinâmica. Um vídeo da governadora correndo na Praça da República, no Recife, enquanto anunciava novos equipamentos para a polícia, viralizou, acumulando milhões de visualizações e curtidas. Essa abordagem, que inclui a prática de corrida como uma marca pessoal, contribuiu para um crescimento significativo de sua popularidade online e nas pesquisas.
Nos primeiros seis meses do ano, Lyra registrou o maior crescimento proporcional de seguidores no Instagram entre os candidatos a governo do Nordeste, com um aumento de 18%, segundo a AtivaWeb Datalab. Em um período de 30 dias, entre março e abril, ela conquistou 76 mil novos seguidores, totalizando 1,9 milhão. Esse desempenho a coloca em uma posição de destaque no cenário digital, especialmente em Pernambuco, que concentra 31% do número de seguidores de candidatos nas eleições estaduais nordestinas, sendo considerado um centro de influência política digital.
Por outro lado, João Campos, conhecido por sua habilidade em engajar nas redes com um estilo jovem e descontraído, mantém a liderança em número absoluto de seguidores no Instagram, com 3 milhões. No entanto, o ex-prefeito tem enfrentado desafios recentes, com quedas em suas taxas de engajamento. Enquanto Campos domina pelo alcance nacional de sua rede, Lyra tem demonstrado um engajamento superior em determinados momentos, indicando que, embora ele tenha o “tamanho”, ela tem o “momento”, conforme análise de Alek Maracajá, diretor da AtivaWeb Datalab.
Batalha judicial e acusações de milícias digitais
A intensidade da disputa online em Pernambuco tem gerado uma série de acusações mútuas entre as campanhas. Raquel Lyra foi acusada por adversários de instrumentalizar uma “milícia digital” contra opositores. João Campos, por sua vez, declarou ter sido alvo de ataques constantes de uma “milícia digital” inorgânica, com robôs e informações falsas, e afirmou que o caso estaria sendo apurado pela Polícia Federal (PF).
A PF, contudo, não confirmou publicamente a abertura de investigações sobre essas denúncias. Outros episódios, como o de um assessor de Lyra flagrado fazendo uma denúncia anônima e um inquérito sobre suposto monitoramento ilegal da Polícia Civil contra aliados de Campos, que foi determinado pelo ministro Gilmar Mendes do Supremo Tribunal Federal (STF), adicionam camadas de complexidade à disputa. A campanha de Lyra, por sua vez, anunciou ações judiciais contra perfis falsos e notícias fraudulentas, alegando ser alvo de ataques devido ao seu crescimento nas pesquisas.
A equipe da governadora apresentou à Justiça Eleitoral e ao Ministério Público um dossiê com provas técnicas, incluindo ofícios de plataformas e operadoras de telefonia, que apontariam para a existência de uma rede coordenada de perfis falsos operando contra Lyra nas redes sociais. A campanha de João Campos não se manifestou sobre essas acusações específicas até a publicação desta reportagem.
Pesquisas eleitorais: a virada no cenário político
O impacto da performance digital na percepção pública tem se refletido nas pesquisas eleitorais. Após iniciar o ano atrás nas sondagens, Raquel Lyra registrou um crescimento significativo, passando a liderar ou a empatar tecnicamente com João Campos. A pesquisa Genial/Quaest, divulgada em 28 de julho, mostrou Lyra com 43% das intenções de voto no primeiro turno, um aumento de nove pontos desde abril, enquanto Campos caiu cinco pontos, atingindo 37%.
No cenário de segundo turno, a inversão também foi evidente: Lyra subiu de 38% para 45%, e Campos caiu de 46% para 39%. Em agosto do ano anterior, Campos liderava com 55% contra 24% de Lyra, uma diferença de 31 pontos que foi drasticamente reduzida. A aprovação da governadora também subiu de 62% para 68%. O Instituto Datafolha corroborou essa tendência, mostrando Lyra com 48% e Campos com 43% em maio, e uma estabilidade posterior de 48% contra 42% em 31 de julho.
Estratégias digitais: convergência e impacto na percepção
Para o cientista político Túlio Velho Barreto, da Fundação Joaquim Nabuco (Fundaj), a percepção inicial de que Lyra seria incapaz de rivalizar digitalmente com Campos se mostrou equivocada. A governadora conseguiu aprimorar sua comunicação, tornando sua imagem mais acessível ao eleitorado metropolitano. Lyra, originária de Caruaru, no Agreste, tem utilizado sua origem interiorana para fortalecer laços com essa região do estado, enquanto Campos, com base forte no Grande Recife, tem seguidores predominantes na capital e em grandes centros como Rio e São Paulo.
A jornalista Simone Graf, pesquisadora da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), observa uma “aproximação entre as estratégias digitais” dos candidatos. Lyra passou a adotar uma linguagem mais leve, valorizando a imagem pessoal, os bastidores e vídeos curtos com edição dinâmica – elementos que eram característicos da comunicação de Campos. Essa convergência de formatos demonstra que estratégias de comunicação política eficazes são rapidamente assimiladas por diferentes lideranças quando comprovam sua capacidade de gerar engajamento e influenciar a percepção pública.
Dentro do governo Lyra, a avaliação é de que houve um avanço importante nas redes sociais da governadora, superando o desafio imposto pela projeção nacional de Campos em sua reeleição para prefeito. A campanha de Lyra entende que o “timing político” de Campos era o crescimento antecipado, enquanto a governadora demonstra uma ascensão mais consolidada na segunda metade de seu mandato. Para mais informações sobre o cenário político brasileiro, clique aqui.
