A transformação do tempo ampliado na escola em uma experiência de aprendizagem verdadeiramente significativa, que ofereça qualidade e oportunidades equitativas a todos os estudantes, transcende a mera extensão da jornada. Essa foi a principal reflexão apresentada por Maria do Pilar Lacerda, renomada pesquisadora e ex-secretária nacional de Educação Básica, durante a segunda sessão do 7º Fórum Internacional de Educação dos Municípios do Alto Tietê. O evento, focado nos ‘Desafios da Educação Integral em Tempo Integral’, reuniu mais de cinco mil profissionais da rede pública da região em um encontro online.
A especialista, com vasta experiência na gestão pública educacional, sublinhou que a educação integral em tempo integral deve ser alicerçada em uma proposta curricular coesa e integrada. Tal abordagem requer intencionalidade pedagógica clara, engajamento ativo da comunidade escolar, articulação eficaz com outros serviços públicos e, fundamentalmente, aprimoramento das condições de trabalho para os profissionais da educação.
Currículo integrado: A base da educação em tempo integral
Um dos maiores riscos identificados pela palestrante é a simples replicação do modelo escolar tradicional, onde o período ampliado se resume a atividades adicionais sem conexão com o currículo principal. Segundo ela, essa fragmentação impede que o tempo extra na escola se converta em uma experiência transformadora, limitando-se a oferecer atividades lúdicas ou esportivas que não dialogam com os objetivos de aprendizagem.
Para mitigar esse risco, Pilar Lacerda defende que o Projeto Político-Pedagógico (PPP) da escola seja construído coletivamente. Este documento deve expressar claramente o conceito de educação integral adotado pela instituição e suas intenções pedagógicas. A pesquisadora exemplificou a integração curricular com a possibilidade de explorar conhecimentos de ciências e química em uma aula de culinária, demonstrando como diferentes atividades e espaços podem enriquecer o processo pedagógico.
Valorização profissional: Formação e condições de trabalho
Outro pilar estrutural para a efetivação da educação integral, conforme a especialista, reside na melhoria substancial das condições de trabalho dos docentes. Isso inclui a dedicação exclusiva a uma única escola, jornadas de 40 horas semanais, estabilidade profissional e tempo adequado para docência, preparação de aulas e estudos contínuos. A formação continuada dos profissionais foi igualmente apontada como uma necessidade urgente e inadiável.
A discussão após a palestra contou com a participação de gestores municipais de Educação, que compartilharam suas experiências e os desafios inerentes às redes de ensino da região. A secretária de Educação de Santa Isabel, Maria Donizeti de Queluz Camargo, detalhou o processo de implementação da primeira escola de tempo integral em sua cidade e os planos de expansão para os próximos anos.
Desafios municipais na implementação da educação integral
Em Guarulhos, o chefe da pasta, Rafael de Souza Carvalho, levantou a questão crucial de como expandir a educação integral em larga escala sem comprometer a qualidade, a sustentabilidade financeira e o sentido pedagógico da proposta. Já Keila Nogueira, secretária adjunta de Educação de Arujá, apresentou a trajetória de seu município na ampliação do atendimento em tempo integral, reforçando a importância de que o período estendido represente uma verdadeira transformação da experiência escolar, e não apenas um acréscimo de horas.
O 7º Fórum Internacional de Educação dos Municípios do Alto Tietê é uma iniciativa conjunta das Secretarias de Educação das cidades consorciadas, com coordenação executiva do Instituto Brasileiro de Sociologia Aplicada (IBSA) e apoio institucional da Unesco. O evento é promovido pelo Consórcio de Desenvolvimento dos Municípios do Alto Tietê e Região (CONDEMAT+).
A continuidade do fórum e os próximos debates
A programação do fórum prevê mais três encontros, agendados para os dias 16, 23 e 30 de setembro, sempre às quartas-feiras, das 19h às 21h. As próximas sessões abordarão temas cruciais como ‘Enfrentamento às Violências na Escola e Contra a Escola’, ‘Relações Étnico-Raciais e Educação Antirracista’ e ‘Desafios para o Futuro da Escola Pública’. Os debates contarão com a participação de especialistas e representantes de instituições acadêmicas renomadas, incluindo a Universidade de São Paulo (USP), Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio), Universidade Federal Fluminense (UFF) e o Conselho Nacional de Educação (CNE).

