Uma perícia da Polícia Civil de São Paulo revelou que 27 dispositivos eletrônicos apreendidos em uma operação contra a produtora do filme “Dark Horse” apresentavam falhas em seus lacres. A constatação levanta questionamentos sobre a integridade das provas e a cadeia de custódia dos materiais, que incluíam notebooks, celulares e pendrives.
Os equipamentos foram inicialmente devolvidos para que os lacres fossem readequados, antes de serem submetidos à análise pericial. A divulgação desses detalhes ocorre após a desclassificação de documentos relacionados ao caso, que se tornou público recentemente.
Perícia detalha falhas em lacres e questionamentos sobre cadeia de custódia
A perícia criminal identificou que os lacres de nove notebooks, cinco celulares e treze pendrives estavam comprometidos. Segundo o relatório da perita Viviane Menezes, os vãos nas guias dos invólucros eram amplos o suficiente para permitir a remoção de pendrives ou a conexão de cabos de alimentação e transferência de dados aos celulares e notebooks. Essa vulnerabilidade abria a possibilidade de manipulação dos dados contidos nos equipamentos.
Os ofícios que detalham essas falhas foram formalizados em 3 de junho, dois dias após a operação inicial. Cinco dias depois, em 8 de junho, os aparelhos foram encaminhados para uma delegacia para a “readequação dos invólucros”, visando a preservação da cadeia de custódia. Contudo, os documentos anexados ao processo não especificam se a perícia conseguiu determinar a integridade dos aparelhos após as falhas ou se houve alguma violação de dados.
A operação “Dark Horse” e as suspeitas de fraude
Os dispositivos foram apreendidos durante uma operação realizada em 1º de junho em residências e empresas ligadas ao Instituto Conhecer Brasil (ICB), presidido por Karina Ferreira da Gama. Karina também é responsável pela Go Up Entertainment, a produtora do filme “Dark Horse”, uma cinebiografia sobre o ex-presidente Jair Bolsonaro.
A investigação da Polícia Civil de São Paulo apura suspeitas de fraude em um contrato de R$ 108 milhões anuais firmado com a Prefeitura de São Paulo para a instalação de pontos de wi-fi na cidade. Há indícios de que parte desses recursos possa ter sido desviada para financiar a produção do filme. O contrato previa a instalação de 5 mil pontos de wi-fi gratuito até junho de 2025, mas, até o momento da apuração, apenas 3.200 foram instalados, e aditivos foram assinados alterando as datas de entrega. Para informações adicionais sobre o contexto da investigação, veja mais detalhes.
Desclassificação de documentos e andamento da análise
O relatório pericial e outros documentos do inquérito da Polícia Civil de São Paulo foram compartilhados com a Polícia Federal por determinação do ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), Flávio Dino. A remoção do sigilo desses documentos, ocorrida recentemente, permitiu que as informações sobre as falhas nos lacres se tornassem públicas.
Após a readequação dos lacres, os aparelhos retornaram ao Instituto de Criminalística. No entanto, a análise pericial completa enfrentou atrasos, com os equipamentos aguardando exames até 23 de julho, em função do “elevado volume de casos e à consequente fila de exames pendentes sob responsabilidade deste perito”. Embora os dados tenham sido extraídos e disponibilizados à delegacia responsável pela investigação, a questão da potencial violação dos dispositivos antes da correção dos lacres permanece sem uma conclusão explícita nos documentos divulgados.

