Em um cenário econômico marcado pela volatilidade e pelo impacto direto na vida dos brasileiros, o Banco Central (BC) se prepara para anunciar a nova taxa básica de juros da economia, a Selic, nesta quarta-feira (16). Este indicador crucial não apenas baliza os juros cobrados de consumidores e empresas, mas também molda o custo do crédito, o consumo e as decisões de investimento em todo o país. Embora a definição da Selic seja prerrogativa do BC, as ações e políticas do presidente da República exercem influência significativa sobre a direção da economia e, consequentemente, sobre a própria taxa.
Diante da relevância do tema, o g1 compilou as principais propostas dos candidatos à Presidência da República, detalhando suas visões para controlar a inflação, reduzir os juros e mitigar o crescente endividamento das famílias. A Selic, atualmente em 14% ao ano, é uma ferramenta primária do Banco Central para conter a inflação. Juros elevados encarecem o crédito, desaceleram o consumo e aliviam a pressão sobre os preços. Contudo, essa política também pode dificultar o pagamento de dívidas e elevar os riscos de inadimplência, impactando diretamente a estabilidade financeira dos cidadãos.
A Selic e seu impacto na economia nacional
A taxa Selic, que serve como referência para todas as demais taxas de juros do mercado, desempenha um papel central na gestão da política monetária. Sua elevação visa desaquecer a economia, tornando o crédito mais caro e incentivando a poupança em detrimento do consumo. Esse mecanismo busca equilibrar a demanda e a oferta, contribuindo para a estabilização dos preços e o controle inflacionário. No entanto, o custo de empréstimos mais altos pode sobrecarregar famílias e empresas, impactando o crescimento econômico e a geração de empregos.
A manutenção de juros em patamares elevados está intrinsecamente ligada às expectativas do mercado em relação à inflação futura e à percepção sobre a saúde das contas públicas. Em 2025, a Selic alcançou 15%, o maior nível em 20 anos, refletindo a complexidade do cenário econômico. A política fiscal, que abrange os gastos e receitas do governo, é um dos fatores cruciais considerados pelo mercado ao formar suas projeções. Essas expectativas, por sua vez, influenciam diretamente as decisões de política monetária do Banco Central, criando um ciclo interdependente entre as esferas fiscal e monetária.
Para mais detalhes sobre a taxa Selic e seu funcionamento, você pode consultar informações no site oficial do Banco Central do Brasil: Banco Central do Brasil.
Propostas dos candidatos para a taxa de juros e controle fiscal
Os planos de governo dos presidenciáveis apresentam abordagens diversas para lidar com a taxa Selic, o controle fiscal e a gestão econômica do país.
Luiz Inácio Lula da Silva (PT): Responsabilidade fiscal e programas sociais
O presidente e candidato à reeleição reconhece que uma Selic elevada desorganiza a economia e concentra renda. Para combatê-la, Lula propõe o controle da inflação e a manutenção da responsabilidade fiscal, com a continuidade da regra do arcabouço fiscal. Ele destaca a ampliação do programa “Desenrola Brasil” para auxiliar famílias e pequenos negócios endividados, além de buscar aumentar o acesso ao crédito para pequenas e médias empresas. O candidato também sugere a regulamentação de apostas online como medida para evitar o comprometimento da renda.
Em declarações, Lula minimizou a preocupação com a dívida pública, argumentando que o crescimento econômico é a chave para reduzir a relação dívida/PIB. Ele comparou a situação brasileira com a de outras grandes economias, como Estados Unidos e Japão, que possuem percentuais de dívida em relação ao PIB superiores.
Flávio Bolsonaro (PL): Corte de gastos e revisão tributária
Para reduzir a Selic, o candidato do PL defende um “tesouraço” nos gastos públicos. Flávio Bolsonaro também propõe a revisão da reforma tributária, com foco na diminuição de impostos e na desoneração de exportações e investimentos. Caso eleito, o presidenciável almeja modificar a regra do arcabouço fiscal. No que tange ao endividamento, ele pretende regular as apostas online e proibir o uso de verbas de programas sociais em plataformas de apostas. Outra proposta é a criação do “Empréstimo Contingente à Renda” para prevenir o endividamento de estudantes universitários.
O senador detalhou que a economia será feita através do combate à corrupção e da redução da burocracia, com a utilização de instrumentos de “governança tecnológica” para controlar os gastos públicos. Ele expressou a expectativa de que a Selic caia já na reunião seguinte do Copom com sua eleição e equipe.
Augusto Cury (Avante): Novas matrizes de risco e crédito acessível
Na área econômica, o candidato do Avante propõe revisar as matrizes de risco bancárias junto às instituições financeiras para conter a alta da Selic. Se eleito, Augusto Cury promete criar o “Banco do Empreendedor”, oferecendo crédito de até R$ 20 mil com juros fixados entre 5% e 6% ao ano. Em relação ao endividamento, o plano de Cury foca no agronegócio, destacando o uso ampliado do Seguro Rural e a inclusão da prevenção ao superendividamento em programas de capacitação. Ele também defende que as linhas de crédito ao produtor rural sejam indexadas ao dólar para cadeias exportadoras.
Cury sugeriu a taxação de 40% sobre as apostas online e a digitalização da máquina pública para aumentar a arrecadação. Ele afirmou que a gestão inteligente da máquina pública, com inteligência artificial e digitalização, geraria economias significativas. Sobre o arcabouço fiscal, o candidato está avaliando a manutenção da regra e criticou o IBS, novo imposto da reforma tributária.
Ronaldo Caiado (PSD): Estabilização fiscal e teto para apostas
O ex-governador de Goiás defende que a Selic só será reduzida com a estabilização fiscal e o controle das contas públicas. Para isso, propõe uma estratégia fiscal plurianual para estabilizar e diminuir a dívida em relação ao PIB, recuperar superávits primários e a despesa de juros, com metas anuais e outros indicadores. Sobre o endividamento da população, Caiado relaciona o tema às apostas online, sugerindo que o superendividamento seja tratado como questão de saúde pública e que seja criado um teto e uma limitação para as apostas.
Caiado reiterou que fará um corte de gastos via PEC (Proposta de Emenda à Constituição) a ser enviada ao Congresso, caso seja eleito, mas não detalhou as áreas específicas. Ele propõe que as despesas do Governo Federal sejam limitadas, corrigindo pela inflação e atingindo no máximo 50% do crescimento do PIB.
Renan Santos (Missão): Equilíbrio fiscal e desindexação de benefícios
O candidato do Missão propõe a “PEC do Equilíbrio Fiscal”, com um ajuste de R$ 212 bilhões anuais para conter o crescimento da dívida, projetando uma economia de R$ 1,1 trilhão até 2031. Em sua reforma, ele pretende desindexar benefícios e desvincular pisos de saúde e educação da receita. A revisão do abono salarial e o corte de renúncias fiscais também fazem parte do plano. Renan Santos sugere um plano de desdolarização da América do Sul, com a criação de uma cesta de moedas sul-americanas liderada pelo real e mecanismos de integração monetária regional. O plano de governo não detalha propostas específicas para o endividamento da população.
Renan explicou que as medidas de corte de gastos visam estabilizar a trajetória da dívida/PIB, que, segundo ele, acelera devido a indexações e vinculações. Ele defende a desindexação dos pisos da educação e saúde, argumentando que estão irracionais e prejudicando pequenos municípios. O candidato afirma que os cortes seriam vinculados a investimentos em infraestrutura, essenciais para o crescimento do Brasil.
Romeu Zema (Novo): Choque fiscal e modernização de crédito
O candidato do Novo e ex-governador de Minas Gerais propõe um “choque fiscal” na gestão federal, com a redução do IOF sobre operações financeiras e a diminuição gradual dos créditos subsidiados do BNDES para estimular a concorrência bancária. Ele sugere modernizar as garantias de crédito para forçar a queda dos juros ao consumidor, cortar impostos e implementar novas reformas da Previdência e administrativa para controlar os gastos. Para sanar o endividamento das famílias, Zema propõe estimular a renegociação de dívidas e a portabilidade de crédito pelo “Open Finance”, visando juros menores. A expansão do “Open Finance”, que integra informações entre instituições financeiras, é uma das bandeiras de sua política econômica.
Samara Martins (UP): Fim da autonomia do Banco Central e auditoria da dívida
Defensora do fim da autonomia do Banco Central, a candidata da UP propõe a suspensão imediata do pagamento de juros e amortização da dívida pública do país. Ela defende a realização de uma auditoria para redirecionar R$ 2 trilhões para áreas essenciais como saúde, educação e moradia. Samara Martins pretende ainda nacionalizar os bancos e estatizar o sistema financeiro, buscando uma reestruturação profunda da economia nacional.
O desafio do endividamento das famílias brasileiras
O cenário de endividamento familiar no Brasil atingiu patamares recordes, conforme levantamento da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC). Em julho, oito em cada dez famílias brasileiras possuíam algum tipo de dívida, um indicador preocupante que reflete a pressão econômica sobre a população. Este dado ressalta a urgência de políticas eficazes para reverter a situação, seja através de programas de renegociação, acesso a crédito mais justo ou medidas de prevenção ao superendividamento. As propostas dos candidatos, nesse sentido, buscam oferecer soluções para aliviar essa carga financeira e promover maior estabilidade para os lares brasileiros.

