A discussão sobre a redução da maioridade penal retorna ao centro do debate político brasileiro, impulsionada por emendas apresentadas à Proposta de Emenda à Constituição (PEC) da Segurança Pública. O plenário do Senado Federal está agendado para votar a PEC, e a oposição busca aproveitar a oportunidade para incluir alterações significativas na legislação que define a idade de responsabilização criminal no país.
Historicamente, o Brasil já adotou diferentes idades para a imputabilidade penal, variando de 7 a 18 anos ao longo dos séculos. A proposta atual visa alterar a regra vigente desde 1940, que estabelece a maioridade penal aos 18 anos, reacendendo um debate complexo com implicações sociais, jurídicas e eleitorais.
O debate atual no Senado sobre a idade penal
A PEC da Segurança Pública, já aprovada pela Câmara dos Deputados, chegou ao Senado sem a inclusão da redução da maioridade penal. Contudo, emendas foram apresentadas para modificar esse cenário, notadamente uma proposta que fixa a maioridade penal em 16 anos para a maioria dos crimes e em 14 anos para crimes considerados hediondos, tortura, tráfico de drogas, terrorismo, organização criminosa e associação criminosa.
Uma sugestão mais restrita também foi colocada em pauta, propondo a redução para 16 anos apenas em casos de crimes hediondos. A votação ocorre em um período eleitoral decisivo, e pesquisas indicam que a redução da maioridade penal é uma das propostas com maior aprovação entre os eleitores, adicionando uma camada de complexidade ao processo legislativo.
A trajetória da maioridade penal na legislação brasileira
A questão da idade para a responsabilização criminal tem uma longa história no Brasil, remontando ao período colonial. Com a chegada de Dom João VI em 1808, as Ordenações Filipinas permitiam a punição de crianças a partir dos 7 anos, com base no Direito Canônico.
O Código Criminal do Império, de 1830, estabeleceu a maioridade penal absoluta em 14 anos, mas permitia a responsabilização de crianças a partir dos 8 anos se houvesse discernimento. Já o Código Penal Republicano de 1890 elevou a idade mínima para 9 anos, mantendo a avaliação judicial do discernimento para a faixa etária de 9 a 14 anos.
No início do século 20, a imprensa já destacava a prisão de crianças e adolescentes, e juristas defendiam a criação de um juízo especializado. A Lei Orçamentária de 1921 determinou que menores de 14 anos não seriam submetidos a processo penal, e o Código de Menores de 1927, o primeiro da América Latina, elevou a idade de irresponsabilidade penal para 14 anos, focando na educação e regeneração.
O Código Penal de 1940 introduziu o critério biológico, que permanece até hoje, considerando menores de 18 anos inimputáveis por estarem em desenvolvimento. Uma tentativa de reintroduzir o critério do discernimento em 1969, durante a ditadura militar, não produziu efeitos e foi revogada.
Argumentos e visões divergentes sobre a proposta
Defensores da redução da maioridade penal argumentam que a medida é essencial para combater o recrutamento de jovens pelo crime organizado. Eles citam a necessidade de uma resposta mais rigorosa do Estado diante da participação de adolescentes em delitos graves.
Por outro lado, a bancada governista e especialistas se opõem à mudança. Eles alertam que a redução poderia agravar a superlotação do sistema prisional e expor jovens, ainda em desenvolvimento, à influência de facções criminosas dentro dos presídios. Há também objeções jurídicas que apontam a inconstitucionalidade da medida, por atingir direitos e garantias fundamentais.
O sistema socioeducativo e a proteção integral
Especialistas na área da infância e adolescência enfatizam que as regras atuais para a responsabilização de jovens por atos infracionais são um modelo de referência, não um enfraquecimento da resposta estatal. Eles defendem que o sistema socioeducativo foi desenhado para responsabilizar o adolescente de forma compatível com sua condição de pessoa em desenvolvimento.
A Constituição de 1988 e o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) de 1990 consolidaram a doutrina da proteção integral, influenciada pela Convenção dos Direitos da Criança da ONU. Esses marcos legais estabelecem que crianças e adolescentes devem receber proteção integral da sociedade, família e Estado, e preveem medidas socioeducativas, como advertência, liberdade assistida e internação, em vez de penas prisionais para os que cometem atos infracionais. Para mais informações sobre o tema, consulte fontes confiáveis como o G1.

