Relatórios da Polícia Federal (PF) tornados públicos revelam um esquema de assessoria informal, grupos de mensagens e cobrança de pagamentos envolvendo Daniel Vorcaro, do Banco Master, e dois servidores afastados do Banco Central (BC): Paulo Sérgio Neves de Souza e Belline Santana. As investigações apontam que os servidores teriam atuado de forma reiterada como consultores, oferecendo orientações detalhadas, revisando documentos sensíveis e intervindo em temas de supervisão bancária em favor do Banco Master, tudo mediante cobrança.
A divulgação desses detalhes ocorre após o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), André Mendonça, levantar o sigilo das principais investigações relacionadas ao Banco Master que tramitam na Corte. A decisão atende a uma solicitação anterior do presidente do Supremo, Edson Fachin, liberando o acesso a um conjunto de inquéritos, reclamações e petições vinculados ao que ficou conhecido como o “caso Master”, ampliando a transparência sobre as apurações.
A Polícia Federal destaca que a atuação de Paulo Sérgio Neves de Souza, que foi promovido a chefe-adjunto do Departamento de Supervisão Bancária (Desup) do BC, assumiu contornos de uma “verdadeira assessoria paralela”. O Desup é o departamento responsável por monitorar o capital e a liquidez dos bancos, além de acompanhar as práticas de gestão e controle interno das instituições financeiras.
Em uma das mensagens interceptadas, datada de 21 de dezembro de 2023, Paulo Sérgio “toma a liberdade” de sugerir pontos a serem abordados por Vorcaro em reuniões com o “Presi”, que a PF infere ser o então presidente do BCB, Roberto Campos Neto. As orientações incluíam focar na estratégia de demonstrar como o Banco WILL, adquirido pelo Banco Master em fevereiro de 2024, agregaria capacidade para oferecer serviços de pagamento e contas correntes a uma base de clientes do Credcesta, estimada em cerca de 4 milhões. O Banco Central, no entanto, decretou a liquidação extrajudicial do Will Bank em 21 de janeiro de 2026.
Paulo Sérgio também teria tentado, a pedido de Vorcaro, atuar para alterar normas de enquadramento de entidades que operam na Superintendência Nacional de Previdência Complementar (Previc). A avaliação do ex-banqueiro era que a regra vigente beneficiava apenas os grandes bancos. Em outro episódio, em 25 de abril de 2025, Vorcaro preparou um ofício do Banco Master ao Desup e solicitou a Paulo Sérgio a revisão da minuta do documento, que alertava sobre a necessidade de garantir níveis adequados dos indicadores de liquidez.
Em outubro de 2025, Belline Santana, ex-chefe de departamento da área de supervisão bancária, criou um grupo de mensagens com Daniel Vorcaro e Paulo Sérgio. Segundo a PF, o objetivo era a “prestação de uma espécie de consultoria, tanto por meio de mensagens de texto e ligações quanto pela revisão de documentos, em benefício dos interesses de Daniel Vorcaro”.
A primeira mensagem de Belline no grupo expressava a intenção de “facilitar nossa interlocução” e elogiava a elaboração de um documento, levantando dúvidas sobre a “necessidade/adequação da expressão, especialmente da DIFIS”. A relação entre Vorcaro e Belline é anterior, com mensagens trocadas desde novembro de 2023 sobre a Comissão de Valores Mobiliários (CVM). Em abril de 2024, Belline propôs uma reunião com Vorcaro e Paulo Sérgio, cujo tema seria “visão prospectiva e estratégica”, o que a PF considera alheio às funções oficiais de Belline no BCB.
As investigações da PF detalham também a cobrança e os pagamentos a Belline Santana, com a participação de Fabiano Zettel, que mencionou a Vorcaro a necessidade de efetuar pagamentos. Em dezembro de 2023, Vorcaro expressou surpresa e questionou se o pagamento estava saindo diretamente do banco, ao que Zettel respondeu que, obviamente, não. As mensagens indicam que os pagamentos eram intermediados.
Ao longo de 2024 e 2025, as conversas sobre os pagamentos a Belline se estenderam. Em 9 de janeiro de 2024, Fabiano Zettel informou Vorcaro sobre um pagamento pendente. Em 30 de janeiro de 2024, Zettel confirmou que realizaria o pagamento a Belline, entre outros. Em outubro de 2024, Zettel esclareceu que parte de um valor de R$ 760.000,00 enviado a Leonardo Palhares destinava-se, na verdade, ao pagamento a Belline. A PF aponta ainda que Vorcaro teria realizado pagamentos a Belline durante uma viagem à França, e houve discussões sobre a criação de uma nova empresa para disfarçar a origem e o destino dos recursos, evitando o uso de uma empresa já associada a Zettel, conhecida como “Super”.
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