A Polícia Federal (PF) revelou, em um documento cujo sigilo foi recentemente levantado, uma série de articulações do ex-banqueiro Daniel Vorcaro nos dias que antecederam a deflagração da Operação Compliance Zero. As informações contidas no relatório sugerem que Vorcaro tinha conhecimento prévio da iminente ação policial, o que reforça a tese de uma tentativa de fuga.
A documentação aponta que a viagem do banqueiro ao exterior, na noite imediatamente anterior ao cumprimento dos mandados, dificilmente seria uma mera coincidência. A decisão de levantar o sigilo das principais investigações relacionadas ao Banco Master que tramitam no Supremo Tribunal Federal (STF) foi do ministro André Mendonça, atendendo a uma solicitação do presidente da Corte, Edson Fachin. Esta medida liberou o acesso a um conjunto de inquéritos, reclamações e petições vinculados ao denominado “caso Master”.
Conhecimento prévio e a Operação Compliance Zero
A Operação Compliance Zero, que culminou na prisão de Daniel Vorcaro, foi precedida por uma série de eventos que, segundo a Polícia Federal, indicam que o banqueiro estava ciente da investigação. O relatório detalha como Vorcaro teria utilizado informações privilegiadas e articulado com diversos interlocutores para tentar se antecipar às ações das autoridades.
A PF ressalta que o panorama geral demonstra que Vorcaro, ao ter ciência da futura e iminente atuação policial, teria se valido de servidores do Banco Central que lhe seriam subalternos devido ao pagamento de vantagens indevidas. Estes foram supostamente usados para forçar uma reunião virtual no dia anterior à operação, em uma tentativa de influenciar os desdobramentos.
A sequência de articulações do banqueiro
A Polícia Federal traçou uma cronologia detalhada das ações de Daniel Vorcaro, que demonstram uma intensa movimentação nos dias que antecederam sua prisão. Cada passo, desde o registro de informações até a tentativa de embarque, foi minuciosamente documentado pelas autoridades.
- 21 de outubro de 2025: Daniel Bueno Vorcaro registra, no aplicativo “Notas”, os nomes de representantes da Polícia Federal que participaram de uma reunião reservada com o Banco Central, indicando acesso antecipado a informações confidenciais.
- 16 de novembro de 2025: Dois dias antes da operação, Vorcaro anota uma nova pergunta sobre a proximidade de um terceiro com o juiz federal Ricardo Soares Leite, responsável por autorizar as medidas contra ele. A natureza sigilosa do inquérito reforça a suspeita de vazamento de informações.
- 17 de novembro de 2025 (manhã): Um dia antes da deflagração da operação, Vorcaro recebe mensagens urgentes de seu advogado, Walfrido Warde, às 07h28min. Após isso, ele altera seus planos e, às 08h48min, informa que agendaria um voo saindo de Congonhas.
- 17 de novembro de 2025 (07h41min em diante): Vorcaro conversa com o jornalista Diego Escosteguy sobre uma reportagem que seria publicada. Após as 11h, ele recebe o link da matéria e o repassa imediatamente a Warde. A reportagem mencionava a existência de um inquérito na 10ª Vara Federal de Brasília.
- 17 de novembro de 2025: Warde protocola uma petição na 10ª Vara Federal do DF, solicitando acesso ao conteúdo da investigação e citando expressamente a reportagem como fonte da informação. Ao longo do dia, ele e Vorcaro continuam a tratar do assunto, insistindo no contato com o juiz do caso.
- 17 de novembro de 2025: Elementos indicam que Vorcaro divulgou à imprensa a notícia de que o Grupo Fictor teria interesse na aquisição do Banco Master.
- 17 de novembro de 2025 (desde 06h34min): Vorcaro mantém contato com servidores do Banco Central, Paulo Sérgio e Belline. Posteriormente, eles consideram “fundamental” que ele fale com o diretor do BC, Ailton Aquino.
- 17 de novembro de 2025 (início da tarde): Uma reunião é articulada para o mesmo dia. Vorcaro propõe às 13h; Paulo Sérgio confirma às 13h15min; e Belline envia o link às 13h35min. Após a reunião, circula uma reportagem sobre a venda do Banco Master ao Fictor, sem surpresa dos servidores, sugerindo um alinhamento prévio.
- Noite de 17 de novembro de 2025: As forças policiais interceptam Vorcaro no aeroporto de Guarulhos/SP, quando ele estava prestes a embarcar em um jato particular com destino final aos Emirados Árabes.
- 18 de novembro de 2025: É oficialmente deflagrada a Operação Compliance Zero – fase I, após decisão judicial favorável aos pedidos da Polícia Federal.
Prisão e soltura: o desenrolar judicial
Daniel Vorcaro foi detido na noite de 17 de novembro do ano passado, no aeroporto de Guarulhos, na Grande São Paulo, enquanto tentava embarcar em um avião particular com destino à Europa. Para a Polícia Federal, a intenção de fuga do país era evidente. Cerca de dez dias após sua prisão, o Tribunal Regional Federal da 1ª Região determinou a soltura do dono do Banco Master e de outros quatro executivos da instituição.
Na decisão que concedeu a liberdade, um dos argumentos utilizados a favor do banqueiro foi o teor da reunião realizada com o Banco Central. Contudo, a PF concluiu que existem fortes elementos indicativos de condutas de Daniel Vorcaro e seus associados direcionadas a proteger o núcleo dirigente da organização criminosa, mediante conhecimento antecipado de atos processuais e articulações com interlocutores em órgãos de controle, além de um planejamento logístico para saída do país próximo à deflagração das medidas policiais.
Essas informações foram usadas pela Polícia Federal para embasar um novo pedido de prisão preventiva do banqueiro, assinado em 27 de fevereiro de 2026. Em março deste ano, Vorcaro foi preso novamente, reiterando a complexidade e a persistência da investigação em torno de suas atividades.
A controvérsia das mensagens com ministro do STF
Um elemento adicional que trouxe maior repercussão ao caso foi a revelação de uma troca de mensagens entre Daniel Vorcaro e o ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF). Os diálogos sugerem que o ministro discutia com o ex-dono do Banco Master a possibilidade de uma operação da Polícia Federal que o teria como alvo.
Essas mensagens estão contidas em um relatório enviado pela Polícia Federal ao STF, cujo sigilo foi retirado pelo ministro André Mendonça em 1º de setembro. Em 15 de novembro de 2025, um sábado, Vorcaro questionou Moraes: “Acha que segunda já tenho que estar fora?”. Quarenta e oito horas depois, na noite de 17 de novembro, o banqueiro foi preso pela PF, adicionando uma camada de complexidade e questionamentos sobre a natureza de suas interações com altas autoridades. Para mais informações sobre as operações da Polícia Federal, visite o site oficial da instituição.

