Categories: Aconteceu no Brasil

Caminhada do Silêncio em São Paulo reafirma memória e denuncia violência de estado

A capital paulista foi palco da 6ª edição da Caminhada do Silêncio pelas Vítimas de Violência do Estado, um evento que anualmente ressalta a importância da memória e da justiça. A concentração teve início em frente ao antigo prédio do DOI-Codi/SP, localizado na rua Tutóia, um local de triste notoriedade por ter sido um dos principais centros de repressão e tortura durante a ditadura militar brasileira, que se estendeu de 1964 a 1985.

Organizado pelo Movimento Vozes do Silêncio, uma iniciativa conjunta do Instituto Vladimir Herzog e do Núcleo de Preservação da Memória Política, o ato reuniu centenas de participantes. Entre eles, destacaram-se familiares de vítimas da violência estatal, bem como representantes de diversos movimentos de direitos humanos, todos unidos na busca por verdade e reparação.

A Memória da Ditadura e a Luta Contínua

O cortejo da Caminhada do Silêncio seguiu pelas ruas da zona sul, em direção ao Monumento em Homenagem aos Mortos e Desaparecidos Políticos, situado no Parque Ibirapuera. A manifestação ocorreu sob escolta da polícia militar, que circulou entre os manifestantes, garantindo a segurança do evento.

Com o lema “aprender com o passado para construir o futuro”, as entidades organizadoras não se limitaram a relembrar os crimes perpetrados durante o regime militar. Elas também fizeram uma contundente denúncia sobre a persistência e a repetição das violências de estado ao longo das décadas, mesmo após o processo de redemocratização do país.

O Legado da Ditadura no Presente

A coordenadora da área de Memória, Verdade e Justiça do Instituto Vladimir Herzog, Lorrane Rodrigues, enfatizou a relevância de debater os impactos da ditadura para além do período histórico em que ocorreu. Ela destacou que, no imaginário coletivo, a ditadura é frequentemente vista como um evento isolado, cujas consequências não se estenderiam ao presente.

Rodrigues explicou que o lema da caminhada busca justamente conectar o passado e o presente, permitindo uma compreensão mais objetiva dos impactos do regime militar na contemporaneidade. Essa reflexão é crucial para fortalecer a democracia, que, segundo ela, ainda não é suficiente nem igualitária para uma parcela significativa da população brasileira.

Uma das ferramentas apontadas para avançar no campo da memória, verdade e justiça são as recomendações da Comissão Nacional da Verdade. Lorrane Rodrigues lamentou que, das 49 recomendações feitas ao estado, poucas foram cumpridas ou o foram apenas parcialmente, apesar do monitoramento bienal realizado pelo instituto.

A Resposta Coletiva ao Autoritarismo

Em nota, o diretor executivo do Instituto Vladimir Herzog, Rogério Sotilli, ressaltou que a Caminhada do Silêncio surgiu como uma resposta coletiva ao autoritarismo e às tentativas de apagamento da história. Ele argumentou que a ditadura militar deixou um legado de impunidade, que se manifesta na violência de estado que o Brasil ainda enfrenta.

Sotilli afirmou que, após cinco edições, o objetivo é retomar o sentimento original da manifestação, especialmente em um período em que a defesa do Estado democrático de Direito tem sido delegada às mais altas instituições, mas ainda sofre ataques graves. A caminhada, portanto, serve como uma demonstração pública da força e da persistência da sociedade civil.

Mais de 30 organizações da sociedade civil, movimentos sociais e entidades de direitos humanos uniram-se à iniciativa. Neste ano, os movimentos também destacaram a possibilidade, defendida pelo ministro Flávio Dino, do Supremo Tribunal Federal (STF), de afastar a aplicação da Lei da Anistia em casos de crimes permanentes, como a ocultação de cadáveres.

O Manifesto: Vozes que Ecoam no Silêncio

Próximo ao encerramento do evento, foi lido o manifesto da caminhada, um texto potente que reiterou os propósitos do movimento. Ele declarou que o silêncio dos participantes não era ausência, mas uma presença viva, uma memória que resiste e uma voz que ecoa nos passos de cada pessoa que se recusa a esquecer.

O manifesto enfatizou que os mortos e desaparecidos não estão no passado, mas são uma permanência, e que a violência de estado não se encerrou com a ditadura. A luta por memória, verdade e justiça é um compromisso inegociável contra a impunidade, exigindo a responsabilização de torturadores e seus cúmplices.

O texto concluiu com um chamado às novas gerações, à sociedade civil e às instituições, para que escolham lembrar, transformar e agir. A mensagem final, simples e inegociável, foi: “Para que nunca se esqueça. Para que nunca mais aconteça. Seguiremos caminhando.” Após a leitura do manifesto, os nomes das vítimas de violência de estado, tanto da ditadura quanto dos dias atuais, foram lidos, e os manifestantes respondiam em coro: “presente”. Para mais informações sobre iniciativas de memória e justiça, visite o site da Agência Brasil.

Fonte: agenciabrasil.ebc.com.br

Redação on-line

Recent Posts

Suzano inicia inscrições para casamento comunitário com 15 vagas disponíveis

Casamento comunitário em Suzano abre inscrições com 15 vagas para casais sem condições financeiras.

21 minutos ago

Mogi das Cruzes promove mutirão de emprego com 420 vagas

Mutirão de emprego em Mogi das Cruzes oferece 420 vagas com salários de até R$…

5 horas ago

Guararema Jazz & Blues Festival encanta com shows e surpresas

Guararema Jazz & Blues Festival encanta com shows e surpresas inesquecíveis.

18 horas ago

Motociclista em fuga colide com poste em Salesópolis

Motociclista em fuga bate em poste em Salesópolis após desobedecer a PM e realizar manobras…

24 horas ago

Acidentes com postes afetam 13 mil imóveis no Alto Tietê em 2026

Acidentes com postes no Alto Tietê deixam 13 mil imóveis sem energia em 2026.

1 dia ago

Guararema Jazz & Blues Festival anima público com shows internacionais

Guararema Jazz & Blues Festival agita público com shows de artistas internacionais.

2 dias ago