O cenário político brasileiro para as eleições de 2026 apresenta uma significativa retração no número de candidaturas ao cargo de deputado federal. Dados recentes do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) indicam uma queda de 28% em relação ao pleito de 2022, passando de 10,6 mil para 7,6 mil candidaturas. Essa diminuição é um reflexo direto das recentes reformas eleitorais, que têm como objetivo principal reestruturar o panorama partidário, incentivando a fusão de siglas e aprimorando os critérios de acesso a recursos e visibilidade.
Apesar do término do prazo para registro, é possível que algumas solicitações ainda estejam em processamento pela justiça eleitoral, o que pode ajustar ligeiramente os números finais. Contudo, a tendência de redução é clara e aponta para uma transformação na dinâmica eleitoral do país, com implicações profundas para a representatividade e a competitividade dos partidos.
As minirreformas eleitorais implementadas nos últimos anos estabeleceram novos critérios para a criação de partidos e, crucialmente, para o desempenho necessário que garante o acesso ao fundo partidário e à propaganda gratuita em rádio e televisão. Segundo Mayra Goulart, cientista política e professora da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), a chamada cláusula de barreira alterou substancialmente o cálculo dos partidos sobre quais candidaturas vale a pena investir.
A lógica é que candidaturas com baixa competitividade, antes consideradas inofensivas, agora podem ser prejudiciais ao desempenho geral da sigla. Isso leva os partidos a um processo de seleção mais rigoroso, dificultando a entrada de novos nomes, a menos que já possuam popularidade comprovada. Essa dinâmica favorece diretamente os políticos que já detêm mandato, dada a sua capacidade de direcionar emendas parlamentares a municípios específicos ao longo dos quatro anos anteriores. De fato, quase 80% dos deputados federais atuais buscam a reeleição em 2026.
A desvantagem para os estreantes, como aponta Goulart, é construída antes mesmo do início da campanha. Ao analisar o número geral de candidaturas registradas no sistema da Justiça Eleitoral, observa-se uma queda de quase 30%, passando de 29 mil para 20 mil candidaturas totais. Isso demonstra uma concentração da disputa em torno de quem já está inserido no sistema político.
A redução no número de candidaturas também se alinha a uma diminuição na quantidade de partidos que apresentarão candidatos nas eleições de 2026. Há quatro anos, 32 siglas tinham representantes na disputa; agora, são 28. Essa consolidação partidária é resultado direto de fusões e incorporações que ocorreram recentemente.
Exemplos notáveis incluem a fusão do PTB e do Patriota, que deu origem ao PRD, e a incorporação do PROS ao Solidariedade, assim como a do PSC ao Podemos. Essa movimentação visa fortalecer as siglas existentes e garantir o cumprimento dos novos requisitos eleitorais. No cenário atual, o PL, a Federação União Progressista (União/PP) e o Novo se destacam com o maior número de candidatos, enquanto partidos como UP, PCO e PSTU apresentam um número menor.
A redução no número de candidaturas não poupou nenhum gênero, afetando tanto homens quanto mulheres. Entre as mulheres, a queda foi de aproximadamente 25%, passando de 3.717 candidaturas em 2022 para 2.788 em 2026. Para os homens, a diminuição foi de cerca de 30%, de 6.905 para 4.840 candidaturas. Contudo, proporcionalmente, a participação feminina registrou um leve aumento, passando de cerca de 35% do total em 2022 para aproximadamente 36,6% em 2026, apesar de as mulheres ainda serem minoria entre os candidatos.
Em meio a essa tendência geral de queda, alguns partidos adotaram estratégias distintas. O Partido Novo, por exemplo, mais que dobrou seu número absoluto de candidaturas, saltando de 221 para 505, um aumento de cerca de 128%. Mayra Goulart explica que, sem uma rede expressiva de mandatos, a cláusula de barreira representa uma ameaça para o Novo, que precisa alcançar 2,5% dos votos válidos nacionais com pelo menos 1,5% em um terço das unidades da federação. A estratégia, portanto, é multiplicar candidaturas em diversos estados para pulverizar votos nominais e atingir a dispersão exigida.
O PL também ampliou sua participação, passando de 511 para 534 candidaturas, um crescimento de 4,5%. O partido, que ocupava a quarta posição em 2022, agora lidera o ranking. Goulart avalia que o PL, com seu amplo enraizamento territorial e capacidade de direcionar emendas, consegue sustentar um grande número de candidaturas viáveis. Por outro lado, a Federação Brasil da Esperança (PT, PC do B e PV) reduziu suas candidaturas de 533 para 486, uma queda de 8,8%. Apesar da perda de posição no ranking, a cientista política destaca que a federação resistiu bem à queda geral, optando por uma estratégia de concentrar votos em nomes mais competitivos. Para mais informações sobre o sistema eleitoral, consulte o Tribunal Superior Eleitoral.
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