Categories: Destaques

Congresso eleito: decisões cruciais sobre impostos, empresas e dinheiro público

A eleição para o Congresso Nacional possui um peso significativo que transcende a disputa presidencial, com repercussões diretas e profundas na economia do país. As decisões tomadas pelos deputados e senadores eleitos, que assumirão seus mandatos em 1º de fevereiro de 2027, moldarão o cenário fiscal, o custo de operação para empresas, os impostos pagos pelas famílias e a destinação de bilhões de reais em recursos públicos para estados e municípios.

Os futuros parlamentares herdarão um conjunto de desafios econômicos já delineados, além de questões pendentes que exigirão sua intervenção. Em alguns casos, terão a prerrogativa de alterar legislações existentes; em outros, as regras atuais continuarão a produzir efeitos independentemente de novas votações, sublinhando a importância estratégica do Poder Legislativo.

O papel do Congresso na reforma tributária em andamento

Uma das pautas centrais que aguarda o novo Congresso é a implementação da reforma tributária. Embora o presidente eleito exerça influência sobre a forma como o novo sistema será aplicado, propondo regras e vetando projetos, o Legislativo detém o poder de preservar, corrigir ou recalibrar a reforma já em funcionamento. Haroldo da Silva, economista e presidente do Conselho Regional de Economia do Estado de São Paulo (Corecon-SP), enfatiza a relevância do parlamento de 2027 nesse contexto.

O calendário de implementação da reforma, estabelecido pela Emenda Constitucional nº 132/2023 e detalhado por Leis Complementares, prevê etapas cruciais. Em 2027, a Contribuição sobre Bens e Serviços (CBS) substituirá o PIS e a Cofins, e o Imposto sobre Bens e Serviços (IBS) começará a ser cobrado com uma alíquota provisória de 0,1%. A alíquota do Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI) será zerada para a maioria dos produtos, sem afetar a Zona Franca de Manaus. A substituição do ICMS e do ISS pelo IBS ocorrerá gradualmente entre 2029 e 2032, com a implantação total do novo sistema prevista para 2033.

Mesmo que o Congresso não aprove novas leis em 2027, esse cronograma avançará. Contudo, os parlamentares poderão decidir sobre pontos pendentes e participar das próximas fases da transição. Setores econômicos organizados, que já possuem forte representação no parlamento, deverão manter sua influência, conforme avalia Fabio Andrade, cientista político e professor de Relações Internacionais da ESPM. Ele destaca que mudanças políticas tendem a ser graduais, e os principais grupos de interesse provavelmente conservarão sua capacidade de negociação.

Essa capacidade de negociação será crucial, por exemplo, na análise de vetos à Lei Complementar nº 227/2026, que introduz alterações nos impostos de diversos setores. Para mais informações sobre a reforma tributária, consulte a página oficial do governo sobre o tema.

Vetos presidenciais e decisões pendentes no Congresso

A Lei Complementar nº 227/2026, sancionada com 13 dispositivos vetados pelo presidente, poderá retornar à pauta do Congresso em 2027, caso os vetos não sejam analisados até o final de 2026. As decisões, nesse cenário, caberão aos deputados e senadores que tomarem posse em fevereiro, pois os vetos não caducam com o fim da legislatura.

João Henrique Gasparino, advogado especialista em impostos e diretor executivo da NimbusTax, explica que a derrubada de um veto exige 257 votos na Câmara e 41 no Senado, contados separadamente. A ausência de votação implica na manutenção da lei sem os trechos vetados. Um dos trechos vetados impacta a compra de imóveis, permitindo que municípios e o Distrito Federal ofereçam ao contribuinte a opção de pagar o Imposto sobre Transmissão de Bens Imóveis (ITBI) no momento da escritura, antes do registro da propriedade e, possivelmente, com uma alíquota menor.

Outro veto relevante diz respeito à redução de 60% nas alíquotas da CBS e do IBS para determinados alimentos líquidos à base de vegetais. Embora a lei sancionada mantenha o desconto para leite fermentado, bebidas e compostos lácteos, o veto presidencial retirou da redução os alimentos líquidos vegetais. Há também vetos relacionados aos impostos cobrados das Sociedades Anônimas do Futebol (SAFs), que poderiam ampliar os benefícios fiscais para o setor.

Impactos em heranças e na folha de pagamentos

Além dos vetos, os senadores eleitos terão de decidir sobre o limite nacional do Imposto sobre Transmissão Causa Mortis e Doação (ITCMD), cobrado pelos estados sobre heranças e doações. A alíquota máxima atual é de 8%, mas um Projeto de Resolução do Senado (PRS nº 57/2019), ainda em análise, propõe elevá-la para 16%. Essa decisão depende exclusivamente do Senado, sem necessidade de votação na Câmara ou sanção presidencial.

É importante ressaltar que o aumento do limite não implica na duplicação automática do imposto para todas as famílias, pois o Senado define apenas o teto. Cada estado estabelece suas próprias alíquotas e faixas de patrimônio. Gasparino acrescenta que o valor final do imposto também depende da base de cálculo, que a LC nº 227/2026 estabeleceu como valor de mercado. Isso pode aumentar o imposto em estados que antes usavam um valor fiscal inferior ao preço de mercado, mesmo sem alteração da alíquota.

Fora da reforma dos impostos sobre o consumo, outra decisão crucial para empresas e trabalhadores é a possível prorrogação da desoneração da folha de salários. A Lei nº 14.973/2024 já determinou a retomada gradual da contribuição previdenciária para 17 setores que empregam muitos trabalhadores. Em 2027, essas empresas recolherão 15% sobre os salários e pagarão uma parcela reduzida da Contribuição Previdenciária sobre a Receita Bruta (CPRB), calculada sobre o faturamento. Em 2028, a CPRB será extinta, e a contribuição sobre a folha retornará a 20%. Para evitar esse aumento, o Congresso precisará aprovar uma nova lei, conforme destaca Haroldo da Silva.

Redação on-line

Recent Posts

PSOL enfrenta dilema eleitoral: votos concentrados em ‘puxadores’ comprometem acesso a fundo partidário

A concentração de votos em nomes fortes do PSOL não garantiu ao partido o acesso…

2 horas ago

Abstenção nas eleições de 2026 é a segunda maior desde a redemocratização; pesquisador desvenda motivos

A abstenção nas eleições de 2026 foi a segunda maior desde a redemocratização. Pesquisador explica…

6 horas ago

Impulsionamento de vídeo contra Flávio Bolsonaro sobre escala 6×1 é vetado pelo TSE

TSE veta impulsionamento de vídeo da campanha de Lula que associa Flávio Bolsonaro à oposição…

12 horas ago

Corregedor do TSE suspende decisão e reabilita canal de campanha no Whatsapp

Corregedor do TSE reverte decisão de Nunes Marques e restabelece canal de campanha no WhatsApp,…

14 horas ago

Flávio Bolsonaro e prefeitos de SP traçam estratégias de campanha com alerta: ‘Não baixar a guarda’

Flávio Bolsonaro se reúne com prefeitos de São Paulo para alinhar estratégias de campanha, enfatizando…

16 horas ago

Dançarina de Mogi das Cruzes celebra estreia emocionante no Palco Mundo do Rock in Rio

Dançarina de Mogi das Cruzes, Melisa Yuki Gunji, compartilha a emoção de sua primeira apresentação…

17 horas ago