Uma operação conduzida pela Polícia Civil de São Paulo revelou um esquema de articulação política voltado para a infiltração do Primeiro Comando da Capital (PCC) em administrações municipais e estaduais. O ex-vereador de Santo André, Thiago Rocha de Paula, foi preso temporariamente sob a acusação de atuar como o principal elo entre a facção criminosa e o poder público, buscando viabilizar interesses do grupo em diversas regiões do país.
A ação, denominada Operação Contaminatio, é um desdobramento de investigações iniciadas em agosto de 2024. Além das prisões, a Justiça determinou o bloqueio de ativos financeiros que somam R$ 513,6 milhões, visando desarticular a estrutura econômica que sustentava a influência da organização criminosa em processos administrativos e licitatórios.
Articulação política e a estratégia de infiltração
As investigações apontam que Thiago Rocha de Paula não exercia funções operacionais ligadas ao tráfico de drogas, mas desempenhava um papel estratégico na abertura de portas políticas. O objetivo central era inserir uma fintech, criada por integrantes da facção, na gestão de receitas municipais. A empresa pretendia atuar na emissão de boletos e no relacionamento bancário com contribuintes, facilitando a lavagem de dinheiro proveniente de atividades ilícitas.
O ex-vereador teria utilizado sua rede de contatos para apresentar o modelo de negócios da fintech a agentes públicos. Em cidades como Campinas e Ribeirão Preto, há indícios de que ele buscou aproximação com gabinetes e vereadores para discutir alterações em sistemas fiscais e a implementação de serviços municipais sob o controle do grupo.
Abrangência da operação e alvos estaduais
A influência mapeada pela Delegacia de Investigações Sobre Entorpecentes (Dise) de Mogi das Cruzes não se limitava às prefeituras. Documentos e dados extraídos de dispositivos eletrônicos indicam que o articulador buscava estabelecer pontes com o governo estadual de São Paulo. Entre os contatos identificados, consta um servidor ligado à Secretaria de Agricultura, com quem o investigado planejava agendas e projetos de internet rural.
A operação cumpriu 22 mandados de busca e apreensão em diversos estados, incluindo São Paulo, Goiás, Distrito Federal e Paraná. A investigação reforça que a organização criminosa financiava campanhas eleitorais para garantir que candidatos alinhados aos seus interesses ocupassem cargos estratégicos na administração pública.
Posicionamento das instituições
A Câmara Municipal de Santo André esclareceu, por meio de nota oficial, que Thiago Rocha de Paula exerceu o mandato de vereador por apenas 20 dias, em maio de 2022, na condição de suplente. A instituição ressaltou que, durante esse curto período, o político não participou de processos de licitação, contratação ou decisões estratégicas da Casa, colocando seus registros à disposição das autoridades.
Até o momento, os investigadores confirmam que nenhum dos alvos da operação detém foro por prerrogativa de função ou ocupa mandato eletivo vigente. A Polícia Civil segue analisando os materiais apreendidos para identificar outros possíveis envolvidos na rede de corrupção e lavagem de dinheiro que visava contaminar a gestão pública.

