Uma investigação conduzida pela Polícia Federal (PF) lançou luz sobre o financiamento do filme ‘Dark Horse’, produção que tem gerado controvérsia e levantado suspeitas de irregularidades. O inquérito, que apura a origem e destinação de recursos recebidos de Daniel Vorcaro, trouxe à tona detalhes sobre o orçamento previsto para o longa-metragem, incluindo valores destinados ao elenco e projeções de bilheteria que têm surpreendido especialistas do setor audiovisual.
Os documentos que integram a apuração foram tornados públicos por decisão do Supremo Tribunal Federal (STF), após um pedido da Procuradoria-Geral da República (PGR). A análise da PF aponta para um descompasso entre os custos projetados para ‘Dark Horse’ e os padrões do mercado cinematográfico brasileiro e internacional, intensificando a necessidade de aprofundamento na investigação sobre a compatibilidade econômica da operação financeira.
A planilha de custos prevista para o filme detalha um cachê de US$ 4 milhões, equivalente a cerca de R$ 20,48 milhões na cotação atual, para o ator americano Jim Caviezel, que interpretaria o ex-presidente Jair Bolsonaro. Embora o nome de Caviezel não seja explicitamente mencionado nos documentos, as parcelas de US$ 2 milhões cada, descritas como ‘talento principal parte 1’ e ‘talento principal parte 2’, indicam a remuneração do protagonista, conforme a terminologia da indústria cinematográfica.
A Polícia Federal destaca que, embora tais valores não configurem um ilícito penal por si só, eles reforçam a necessidade de investigar a fundo a destinação dos recursos. Documentos do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) indicam que ao menos US$ 12,3 milhões (R$ 63 milhões) dos US$ 24 milhões (R$ 123 milhões) solicitados pelo senador Flávio Bolsonaro ao banqueiro foram efetivamente pagos. Contudo, não há confirmação se o pagamento ao ator foi realizado ou qual foi o custo final da produção.
O diretor de ‘Dark Horse’, Cyrus Nowrasteh, defendeu os valores, afirmando que a comparação de custos feita pela imprensa brasileira é falha, pois os orçamentos de produção nos Estados Unidos são divulgados sem incluir os custos de marketing, enquanto o valor de ‘Dark Horse’ citado incluiria essa despesa. Ele argumenta que comparar um valor que engloba produção e marketing com custos apenas de produção é um erro.
No entanto, a Polícia Federal, ao analisar a planilha de custos apresentada a Daniel Vorcaro, observou que não há menção a despesas de distribuição, categoria que abrange o marketing. No setor cinematográfico, a etapa de pós-produção envolve a edição e finalização da obra, enquanto os custos para levar o filme ao público, incluindo divulgação e distribuição, correspondem a uma parcela significativa do orçamento total, geralmente acima de 30% das demais despesas.
Mesmo desconsiderando a conversão para o real, profissionais da indústria cinematográfica consultados em caráter reservado consideram os US$ 4 milhões destinados a Caviezel um valor exagerado. Para contextualizar, Robert Downey Jr., um dos atores mais populares da atualidade, recebeu a mesma quantia para seu papel central em ‘Oppenheimer’, filme que arrecadou US$ 976 milhões globalmente.
Outras comparações ilustram a discrepância: Cillian Murphy, protagonista de ‘Oppenheimer’, teria recebido US$ 10 milhões, enquanto Joaquin Phoenix recebeu US$ 4,5 milhões para interpretar Coringa no primeiro filme da franquia, que superou US$ 1 bilhão em bilheteria. As projeções mais otimistas para ‘Dark Horse’ indicam uma arrecadação de US$ 100 milhões, valor que, no cenário atual, foi alcançado por filmes como ‘Rivais’, estrelado por Zendaya, uma das maiores estrelas pop da nova geração.
A trajetória de Jim Caviezel, apesar de ter protagonizado ‘A Paixão de Cristo’ (que arrecadou US$ 612,1 milhões), foi marcada por papéis em projetos de menor visibilidade desde então. Embora ‘O Som da Liberdade’ (2023) tenha tido um bom desempenho com US$ 250,5 milhões globalmente, ainda está aquém dos grandes sucessos de Hollywood.
Especialistas da indústria argumentam que, enquanto histórias como as do Coringa ou do criador da bomba atômica possuem apelo global, a narrativa de um ex-presidente brasileiro dificilmente atrairia grandes massas fora do Brasil. Este cenário é agravado pela retração do mercado de cinema pós-pandemia, com uma queda de 20,6% na bilheteria global entre 2019 e 2025, e uma redução de 36,5% no público brasileiro, segundo a Agência Nacional do Cinema (Ancine).
As preocupações com os pagamentos foram evidenciadas em comunicações do senador Flávio Bolsonaro, que, em áudios, cobrou Daniel Vorcaro e expressou receio de inadimplência com o ator e o diretor. Em um dos áudios, o senador afirmou que a produção estava ‘no limite’ e convidou Vorcaro para um jantar com os artistas, um mês antes da prisão do banqueiro. Para mais informações sobre investigações financeiras, clique aqui.
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