Um relatório recente da Fundação SOS Mata Atlântica acende um alerta sobre a qualidade da água do Rio Tietê, indicando uma deterioração significativa no trecho que atravessa Mogi das Cruzes. Enquanto a nascente, localizada em Salesópolis, mantém uma classificação boa, a análise do rio no município mogiano foi categorizada como ruim, marcando o início da degradação do curso d’água em sua jornada rumo à Grande São Paulo.
Os dados, divulgados nesta quarta-feira (24) como parte da Expedição Tietê 2025, revelam a presença de diversos poluentes. A pesquisa, que avaliou as condições ambientais do rio desde sua nascente até a foz, percorreu mais de 1,1 mil quilômetros e analisou 14 pontos de coleta, fornecendo um panorama detalhado da saúde do Tietê.
O trecho do Rio Tietê em Mogi das Cruzes, especificamente no km 62, foi classificado com um Índice de Qualidade da Água (IQA) ruim. Pesquisadores identificaram uma alta concentração de nitrogênio, coliformes (614 mil unidades formadoras de colônia), quatro tipos de agrotóxicos e treze fármacos na água. Essas substâncias são predominantemente associadas ao lançamento de esgoto doméstico e efluentes industriais, indicando um aumento significativo de matéria orgânica e compostos nitrogenados.
A presença de cafeína, um dos fármacos detectados, é um forte indicador de esgoto doméstico. A prefeitura de Mogi das Cruzes informou que os índices de coleta e tratamento de esgoto na cidade são de 85% e 63%, respectivamente, o que significa que cerca de 37% do esgoto ainda é encaminhado ao rio sem tratamento adequado. Curiosamente, não foram encontradas partículas de microplásticos neste ponto específico.
Em contraste com Mogi das Cruzes, a nascente do Rio Tietê, em Salesópolis, recebeu a classificação de boa no IQA, sendo o ponto com melhor avaliação entre todos os locais monitorados. As análises físico-químicas indicaram características de um ambiente preservado, com baixa presença de matéria orgânica e reduzida influência de fontes de poluição agrícola ou esgoto.
No entanto, mesmo em um ambiente considerado preservado, a Expedição Tietê 2025 detectou sinais de interferência humana. Foram encontrados cafeína e traços de cocaína (abaixo do limite de quantificação), além de dois tipos de agrotóxicos e partículas de microplásticos. A presença dessas substâncias, segundo os pesquisadores, pode estar relacionada ao lançamento de esgoto e à circulação de visitantes na área, reforçando a necessidade de monitoramento contínuo.
A situação da qualidade da água do Rio Tietê reflete os desafios persistentes no saneamento básico e na fiscalização ambiental. Em Mogi das Cruzes, o Serviço Municipal de Água e Esgoto (Semae) é responsável pela coleta e tratamento do esgoto doméstico, enquanto os efluentes industriais devem ser tratados pelas próprias indústrias, com fiscalização a cargo da Companhia Ambiental do Estado de São Paulo (Cetesb).
Em Salesópolis, a Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo (Sabesp) reporta um índice de coleta de esgoto de 56% e tratamento de 99,37% do volume coletado. Contudo, o Parque Nascentes do Tietê, por ser uma área rural e isolada, não possui redes públicas de abastecimento de água e coleta de esgoto. A fundação SOS Mata Atlântica destaca que a piora da qualidade da água está diretamente ligada à ocupação do solo e aos padrões de consumo da população ao longo da bacia.
O relatório conclui que a poluição do Rio Tietê se intensifica à medida que o rio avança pela Região Metropolitana de São Paulo, mas os contaminantes já são uma realidade em diferentes trechos devido à urbanização e às atividades agropecuárias. A Prefeitura de Mogi das Cruzes reconhece a importância do estudo da SOS Mata Atlântica como um guia para a preservação dos recursos hídricos.
O Semae, em parceria com uma instituição de ensino local, está atualizando o Plano Municipal de Abastecimento de Água e de Esgotamento Sanitário (PMAE), com o objetivo de universalizar as metas de saneamento conforme a legislação federal. Após a conclusão do estudo, a meta é definir estratégias de uso do solo nas margens do rio e formular políticas públicas para a proteção, conservação e recuperação das áreas de várzea, buscando reverter o quadro de deterioração.
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