Publicações que viralizaram nas redes sociais, incluindo Instagram e X, a partir de 3 de setembro, divulgaram um suposto relatório da Polícia Federal (PF) que alegava não haver indícios de crimes nas conversas entre o deputado federal Nikolas Ferreira (PL-MG) e o ex-banqueiro Daniel Vorcaro. No entanto, a Polícia Federal desmentiu categoricamente a autoria do documento, e uma análise técnica confirmou que a imagem do relatório foi gerada por inteligência artificial (IA), configurando uma notícia falsa.
Viralização e o conteúdo do relatório falso
Os posts, que alcançaram mais de 1 milhão de visualizações, apresentavam uma “foto” de uma suposta análise técnica da PF. A legenda frequentemente citava trechos como: “Caiu por terra a narrativa; foi em menos de 24h: ‘PF diz em relatório que não há indícios de crimes do deputado Nikolas Ferreira em conversa com Vorcaro. Não foram identificados indícios suficientes para sugerir a abertura de inquérito específico ou adoção de medidas investigativas em face do Deputado Nikolas Ferreira'”.
O suposto documento incluía um cabeçalho com o brasão da PF, uma “data de extração” de 18 de novembro de 2026, e um “período analisado” de 1º de janeiro de 2024 a 17 de novembro de 2025. Dentro do conteúdo, havia intertítulos como “7 – Análise de Mensagens – Interlocutores Políticos e Institucionais” e “7.3 – Conversas com o deputado NIKOLAS FERREIRA (PL/MG)”, indicando que a conversa entre Ferreira e Vorcaro teria ocorrido em 7 de janeiro de 2025.
A disseminação dessas publicações ocorreu após o portal ICL Notícias revelar que Nikolas Ferreira havia enviado áudios a Vorcaro solicitando ajuda para Thiago Rodrigoes de Faria, seu ex-assessor, em um negócio no setor de mineração. O parlamentar, em declaração à GloboNews, afirmou que a negociação não foi adiante e o projeto foi abandonado devido à repercussão negativa do caso Master.
A desmistificação pela Polícia Federal e a origem artificial
A assessoria de imprensa da Polícia Federal foi enfática ao informar, por e-mail, que “O documento citado não foi produzido pela PF”. Essa declaração oficial descredibiliza completamente a autenticidade do relatório que circulava nas redes sociais e que atribuía à corporação a conclusão de ausência de indícios criminais.
Para além da negativa da corporação, a imagem do relatório falso foi submetida à ferramenta Verify OpenAI, um detector de conteúdos gerados por inteligência artificial. A análise confirmou a origem sintética do documento, revelando a presença de uma marca d’água SynthID, tecnologia desenvolvida pelo Google que insere indicadores imperceptíveis a olho nu em conteúdos criados por IA, comprovando a falsificação.
Inconsistências que revelam a falsificação
O exame detalhado do documento falso expôs diversas inconsistências, características comuns em materiais forjados. Uma das principais falhas reside na contradição de datas: enquanto o relatório indicava que o áudio de Nikolas Ferreira para Daniel Vorcaro foi enviado em 7 de janeiro de 2025, a conversa real, segundo as apurações, ocorreu em 30 de março de 2025.
Outros elementos adulterados incluem o brasão e o nome da divisão da PF. O símbolo da corporação na imagem difere da versão oficial, que possui um triângulo no acento da palavra “Polícia”. Além disso, a análise falsa é assinada pela “Diretoria de Investigação e Combate ao Crime Organizado”, quando a denominação correta na estrutura da Polícia Federal é “Dicor – Diretoria de Investigação e Combate ao Crime Organizado e à Corrupção”.
A sequência numérica dos tópicos também apresenta erros, saltando do item 7 diretamente para o 7.3, sem a presença dos subitens 7.1 e 7.2. Essas discrepâncias reforçam a natureza fabricada do documento e a intenção de enganar o público com informações inverídicas sobre a investigação.

