A empresária Roberta Luchsinger, identificada pela Polícia Federal (PF) como lobista, encontra-se no centro de uma complexa rede de processos judiciais e dívidas não pagas. Seu histórico de débitos abrange desde pequenos fornecedores a grandes órgãos públicos, totalizando mais de um milhão de reais apenas em impostos. Essa realidade contrasta fortemente com a imagem de luxo e viagens frequentes que ela projeta em suas redes sociais.
A análise de múltiplos processos, conduzida em tribunais de São Paulo e Minas Gerais, revela um padrão de descumprimento de acordos e dificuldades para a Justiça localizá-la ou encontrar bens e valores em seu nome. Em algumas ocasiões, a empresária chegou a alegar pobreza para se eximir do pagamento de custas processuais, enquanto credores enfrentam prejuízos significativos.
As duas empresas de Roberta Luchsinger, a RL Consultoria e Intermediações S.A e a produtora Elephant 2 Produções Ltda, acumulam uma dívida fiscal que ultrapassa R$ 1,1 milhão. A RL Consultoria deve mais de R$ 821 mil em impostos federais e cerca de R$ 199 mil em Imposto Sobre Serviços (ISS) à Prefeitura de São Paulo, este último em atraso há aproximadamente cinco anos. A Elephant 2, por sua vez, tem débitos de R$ 54 mil com a União e R$ 27 mil com o município paulista, também referentes ao ISS. Mais informações sobre a atuação da PGFN podem ser encontradas em seu site oficial.
Além das obrigações fiscais, a lista de credores da empresária é extensa e variada. Inclui profissionais como tapeceiro, babá e empregada doméstica, além de instituições como a escola da filha, uma loja de roupas, inquilinos e até uma agência de marketing eleitoral. Muitos desses credores relatam anos de tentativas frustradas de reaver os valores devidos, enfrentando a dificuldade de execução judicial.
Roberta Luchsinger é alvo de uma investigação da Polícia Federal por suspeita de tráfico de influência e corrupção. As apurações indicam que ela teria recebido R$ 1,5 milhão para atuar como lobista de Antônio Carlos Camilo Antunes, conhecido como “Careca do INSS“, atualmente preso preventivamente por fraudes na previdência. A PF investiga se a empresária utilizou suas relações no governo federal para facilitar contratos com a administração pública.
Em 2024, registros apontam que Roberta efetuou um pagamento de R$ 217 mil a Marco Aurélio Ribeiro, o “Marcola“, ex-chefe de gabinete da presidência. Marcola, contudo, afirma que o valor se refere a um empréstimo já quitado. A PF também apura possíveis vantagens indevidas a Fábio Luís da Silva, o “Lulinha“, de quem Roberta é amiga. Ambos, Lulinha e Marcola, negam as acusações, assim como a própria empresária.
Um dos episódios mais emblemáticos envolvendo Roberta Luchsinger é a tentativa de produzir um filme sobre o designer de carros de luxo Horácio Pagani, em 2016. A empresária e uma sócia buscaram o aposentado Lauro Escobosa Vallejo, com experiência no mercado financeiro, para auxiliar na captação de investidores. Elas se apresentaram como produtoras de prestígio, com respaldo financeiro familiar.
Para iniciar a produção, um “empréstimo-ponte” de US$ 300 mil foi necessário, com a promessa de um investimento futuro de US$ 4 milhões de um suposto fundo do Bahrein. Roberta convenceu Lauro a ser avalista do empréstimo, colocando sua fazenda com pousada em São Tomé das Letras (MG), avaliada em R$ 8 milhões, como garantia. O dinheiro do Bahrein nunca se concretizou, os US$ 300 mil desapareceram, e Lauro perdeu sua propriedade. A Elephant 2, empresa envolvida, não possui registro na Ancine nem produções conhecidas, e o contrato com o fundo do Bahrein não tinha assinaturas válidas. Roberta alega ter sido vítima de um golpe, e que Lauro estava ciente dos riscos.
Em 2017, Roberta Luchsinger ganhou notoriedade ao se apresentar como herdeira de um banqueiro suíço, fundador do Credit Suisse. Na época, ela prometeu doar R$ 500 mil a Lula, cujos bens estavam bloqueados pela Operação Lava Jato, mas o valor nunca foi entregue. Essa narrativa, posteriormente desmentida – seu avô era um comerciante carioca, não um banqueiro suíço –, permitiu-lhe transitar em círculos políticos, chegando a se candidatar a deputada estadual em 2018, sem sucesso.
Entre os diversos calotes, destaca-se a dívida com o tapeceiro Nilton Cezar Pires, que reformou sua casa em 2011. Após pagar um sinal, Roberta deixou de quitar os R$ 61 mil restantes. Condenada em diversas instâncias, ela ofereceu 14 gravuras que alegava serem originais de Cândido Portinari, avaliadas em R$ 70 mil. No entanto, o Projeto Portinari confirmou que as obras eram meras reproduções. O tapeceiro, que chegou a vender um carro para cobrir despesas, encerrou o processo em 2019 com as obras falsas.
Outros casos incluem uma dívida de R$ 91 mil com a escola da filha em 2017, nunca paga, e um débito de R$ 6.124 em uma boutique, que hoje supera R$ 21 mil. Em um desses processos, um quadro oferecido como penhora, avaliado em R$ 100 mil, desapareceu antes do leilão. A empresária também foi alvo de uma ação de despejo por não pagar aluguel, condomínio e IPTU de um apartamento em Higienópolis, pertencente a um casal de idosos. A dívida, que se aproximava de meio milhão de reais, foi quitada em maio de 2024, coincidindo com o avanço das investigações da Polícia Federal.
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