A proposta de emenda à Constituição (PEC) que visa pôr fim à escala de trabalho 6×1, já aprovada na Câmara dos Deputados, enfrenta um cenário de incerteza no Senado Federal. O presidente da Casa, Davi Alcolumbre (União-AP), levantou a possibilidade de um trâmite diferenciado para a matéria, sugerindo o envio a uma comissão especial ou a múltiplos colegiados. Essa sinalização, considerada sem precedentes para PECs aprovadas no Senado, acendeu um alerta entre os parlamentares governistas, que veem na medida um potencial atraso para a votação de uma das principais bandeiras do governo.
Em sessão recente, Alcolumbre anunciou que se reuniria com líderes partidários para definir o caminho da proposta. Ele mencionou solicitações de senadores para a criação de uma comissão especial e enfatizou que a PEC “vai ter que tramitar nas comissões”, no plural, indicando uma análise mais aprofundada do que o usual. Essa abordagem diverge do regimento interno do Senado, que estabelece a Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) como o único colegiado responsável pela análise de admissibilidade e mérito de uma PEC antes de seguir para o plenário.
O Inédito Caminho Proposto para a PEC 6×1
O regimento do Senado Federal é claro ao determinar que uma Proposta de Emenda à Constituição deve ser analisada exclusivamente pela Comissão de Constituição e Justiça (CCJ). Esta comissão tem a dupla responsabilidade de verificar a constitucionalidade da matéria e o seu conteúdo, antes que o texto seja submetido à votação em plenário. A regra difere da Câmara dos Deputados, onde a tramitação de uma PEC pode envolver a CCJ para admissibilidade e uma comissão especial para o mérito, antes da etapa final no plenário.
Questionada sobre precedentes, a assessoria do Senado informou que, desde a promulgação da Constituição de 1988, nenhuma PEC aprovada pela Casa tramitou em outra comissão além da CCJ. Houve registros de nove propostas encaminhadas a uma comissão temporária de Segurança Pública entre 2005 e 2009, mas nenhuma foi analisada, e o colegiado acabou extinto. Além disso, três PECs entre 1989 e 1991 passaram por uma comissão especial, mas foram rejeitadas ou prejudicadas, não estabelecendo um precedente de aprovação por essa via. Técnicos avaliam que, mesmo com uma inovação regimental, a votação em outra comissão seria informal, exigindo posterior ratificação na CCJ.
Preocupação Governista e o Cenário Político
A fala do presidente do Senado gerou apreensão entre os senadores governistas, que temem que a tramitação estendida possa atrasar significativamente a aprovação da PEC. A proposta do fim da escala 6×1 é uma das promessas de campanha do governo, que almeja sua promulgação ainda em agosto para que parte de seus efeitos seja sentida a tempo das eleições ou de um eventual segundo turno. O texto aprovado na Câmara prevê que a medida entre em vigor 60 dias após a promulgação.
O senador Paulo Paim (PT-RS) expressou sua surpresa com a sugestão de Alcolumbre. “Desde que eu estou no Senado, cinco mandatos, nunca vi uma PEC passar por outras comissões [além da CCJ]”, afirmou. Essa preocupação é compartilhada por outros parlamentares que veem a possibilidade de uma estratégia para frear o avanço da matéria. Por outro lado, empresários têm pressionado os senadores para que a discussão seja contida, temendo que a proximidade das eleições possa contaminar o debate e apressar uma decisão.
O Papel do Senado e as Articulações Futuras
Alcolumbre deixou claro que o Senado não atuará como um “carimbador” de textos vindos da Câmara, defendendo a necessidade de um debate aprofundado na Casa. “Não é razoável que a Câmara passe cinco meses debatendo um assunto muito relevante para o Brasil, para os trabalhadores e para os empreendedores, e o Senado seja obrigado a carimbar o texto aprovado na Câmara”, declarou. Essa postura é interpretada nos bastidores como uma tentativa de marcar posição e reafirmar a independência do Senado no processo legislativo.
Nos corredores do Senado, analistas políticos especulam sobre as motivações por trás da declaração de Alcolumbre. Uma das leituras é que o presidente do Senado estaria buscando constranger o governo, possivelmente em resposta ao desgaste gerado pela tentativa de Lula de reenviar o nome de Jorge Messias para o Supremo Tribunal Federal (STF), que foi rejeitado em abril. Outra interpretação sugere que Alcolumbre estaria fazendo acenos à direita, visando apoio para sua recondução à presidência do Senado em fevereiro de 2027, uma eleição que já movimenta articulações em Brasília. Para isso, o apoio de senadores da oposição pode ser crucial.
Próximos Passos na Tramitação da Proposta
Interlocutores do presidente do Senado avaliam que a tendência mais provável é que a PEC do fim da escala 6×1 acabe tramitando apenas pela CCJ, conforme o regimento. No entanto, a possibilidade de uma comissão especial não é totalmente descartada, reforçando a intenção de Alcolumbre de garantir um amplo debate e evitar a percepção de que o Senado simplesmente referendaria o texto da Câmara sem uma análise própria. A decisão final sobre a tramitação e a definição do relator da PEC na Casa será tomada em uma reunião de líderes agendada para a próxima terça-feira, dia 9. Acompanhe mais informações sobre o processo legislativo no Senado Federal em Senado Federal.

