Em um embate que transcendeu as fronteiras estaduais, os candidatos ao governo de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos) e Fernando Haddad (PT), protagonizaram um debate intenso na Band. O encontro, marcado por um clima de segundo turno já na primeira fase da disputa, focou em dados e narrativas sobre a gestão estadual e federal, além de abordar temas como o crime organizado, tarifas internacionais e privatizações.
A ausência de outros candidatos com significativa representatividade no Congresso Nacional permitiu um confronto direto e aprofundado entre os dois principais nomes. A dinâmica do debate foi caracterizada pela troca de informações e pela tentativa de nacionalizar a disputa, com cada candidato buscando vincular o adversário a figuras políticas de âmbito federal.
Dinâmica do Confronto e a Busca por Protagonismo
O programa foi mediado por Rodolfo Schneider, diretor-geral de Jornalismo e Esporte do Grupo Bandeirantes, e estruturado em três blocos distintos. A dinâmica permitiu perguntas do mediador, questionamentos de jornalistas e confrontos diretos, onde os candidatos puderam administrar seu tempo para apresentar propostas e rebater críticas.
No primeiro bloco, Tarcísio e Haddad responderam a uma pergunta inicial sobre educação, seguida por um confronto direto com tempo livre para cada um. O segundo bloco trouxe perguntas de jornalistas do Grupo Bandeirantes, com tempo definido para respostas, comentários e réplicas. O terceiro e último bloco reservou mais um confronto direto, invertendo a ordem de fala, e foi concluído com as considerações finais dos candidatos.
Educação em Debate: Desafios e Propostas para o Estado
A discussão sobre educação abriu o debate, com foco no desempenho de São Paulo nos resultados do Ideb. Foi destacado que o estado se encontra próximo da média nacional no ensino médio, com um avanço inferior à média do país, e que estados com PIB menor, como Piauí e Pará, apresentaram resultados superiores. Exemplos internacionais e de um município do sertão nordestino também foram citados para contextualizar o cenário.
Tarcísio de Freitas defendeu os avanços de seu governo na alfabetização na idade certa e apresentou prioridades como o Pacto pela Matemática, educação tecnológica com inteligência artificial, formação continuada de professores, ampliação de escolas de tempo integral, ensino profissionalizante e recuperação da aprendizagem. Ele mencionou a ampliação de 150 mil matrículas e quase 500 escolas de tempo integral, além de programas de bolsa-estágio e tutoria.
Fernando Haddad, por sua vez, classificou a situação da educação em São Paulo como grave, apontando uma queda na qualidade do ensino médio e um desempenho abaixo da média nacional na alfabetização de crianças na idade certa (61% contra 66% da média brasileira). O candidato criticou o projeto pedagógico estadual, mencionando a substituição de livros didáticos por plataformas digitais e questionando a infraestrutura de internet nas escolas. Ele defendeu a necessidade de ampliar o apoio aos professores e o uso adequado de tecnologias.
No primeiro confronto direto, Tarcísio rebateu Haddad, argumentando que os dados deveriam incluir o ensino profissionalizante. Ele afirmou que São Paulo teria aumentado de 12% para 42% o número de alunos do ensino médio em dupla formação, o que, ao ser considerado na avaliação, elevaria a nota do estado para 4,5, mantendo sua posição apesar do crescimento nacional.
Segurança Pública: Confrontos sobre Criminalidade e Ações Governamentais
A segurança pública foi outro ponto central do debate, com Tarcísio de Freitas defendendo os resultados de sua gestão. Ele citou a atuação conjunta com a Prefeitura de São Paulo, Ministério Público e Judiciário no combate à criminalidade na Cracolândia, destacando ações contra o tráfico, a criação de 700 leitos para desintoxicação e 44 casas terapêuticas, além de medidas de habitação e assistência social. A integração entre investigação e inteligência policial foi apontada como crucial para identificar o funcionamento do crime na região.
Em resposta às críticas sobre violência contra a mulher, Tarcísio afirmou que São Paulo apresenta índices de feminicídio e mortes violentas de mulheres inferiores à média nacional, citando dados do Ministério da Justiça. Ele mencionou a ampliação da rede de proteção, com 144 Delegacias da Mulher e 235 salas DDM funcionando 24 horas, além do protocolo Não Se Cale e o Espaço Lilás. O governador destacou que os indicadores de violência contra a mulher apresentavam redução pelo segundo mês consecutivo.
Haddad, por outro lado, concentrou suas críticas na violência contra as mulheres e nos crimes raciais, afirmando que São Paulo estaria vivendo uma “epidemia de crimes contra a mulher”, com base em dados do Fórum Brasileiro de Segurança Pública. Ele também apontou um aumento nos crimes raciais e questionou as escolhas do governo na área de segurança, citando a insatisfação da população e o afastamento de um comandante-geral da Polícia Militar por supostos vínculos com o PCC.
Na réplica, Haddad contestou os dados de Tarcísio, afirmando que o feminicídio teria crescido 10% em São Paulo no primeiro semestre daquele ano, enquanto o país registrava queda de 2,5%. Ele também destacou o alto número de roubos de celulares na capital paulista, criticando a falta de investimento em tecnologias adequadas. Tarcísio defendeu a composição técnica de seu secretariado e a atuação do ex-secretário de Segurança Pública Guilherme Derrite, além de ressaltar a participação da polícia estadual e do Gaeco na Operação Carbono Oculto.
Nacionalização da Disputa e Temas Econômicos
O debate também abordou a relação entre os governos estadual e federal, com Haddad buscando vincular Tarcísio ao ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) e criticando a atuação do governo Lula. Tarcísio, inicialmente resistente à nacionalização, posteriormente elogiou seu padrinho político e criticou a gestão federal. A disputa pelo protagonismo em torno do túnel Santos-Guarujá ilustrou essa dinâmica, com ambos os candidatos destacando a parceria entre os governos e os investimentos envolvidos. Tarcísio ressaltou que a contrapartida estadual representa 84% do valor total.
Outros temas econômicos, como as tarifas dos Estados Unidos sobre produtos brasileiros, o agronegócio e o combate ao domínio territorial de facções criminosas, também foram discutidos. Um momento de maior tensão ocorreu quando Tarcísio mencionou uma aparição de Haddad ao lado de uma mulher apontada como traficante, gerando uma reação do candidato do PT, que pediu para o governador “baixar essa bola”.
A Operação Carbono Oculto foi mencionada por Haddad como um exemplo da participação do governo federal e da Receita Federal no combate ao crime organizado, sendo considerada por um especialista como a maior ação do tipo na história. Haddad criticou o que considerou falta de reconhecimento, por parte de Tarcísio, das parcerias federais com São Paulo. Acesse mais informações sobre política nacional.

