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Propostas de candidatos ao Senado em SP negligenciam regulação de redes no combate à violência de gênero

A corrida eleitoral para o Senado em São Paulo revela uma lacuna significativa nas propostas de combate à violência contra a mulher. Em um cenário de aumento de feminicídios e proliferação de conteúdos misóginos nas redes sociais, nove dos candidatos mais bem posicionados na pesquisa Datafolha de 21 de agosto, entrevistados pelo SP1, não incluíram a regulação de plataformas digitais como uma estratégia para enfrentar o problema.

As discussões sobre o tema têm ganhado urgência, especialmente com a ascensão de perfis que promovem a submissão feminina, como os influenciadores que disseminam a ideologia Redpill ou o conceito de tradwife. Contudo, as soluções apresentadas pelos concorrentes ao Senado se concentram majoritariamente em medidas reativas, que atuam após a ocorrência da violência.

Propostas Focadas na Consequência da Violência

Durante as entrevistas, os candidatos ao Senado por São Paulo apresentaram diversas propostas para o enfrentamento da violência contra a mulher. Entre as sugestões mais recorrentes, destacam-se a criação de delegacias da mulher com funcionamento 24 horas, o monitoramento de agressores por meio de tornozeleiras eletrônicas, a oferta de casas de acolhimento para vítimas e o endurecimento das penas para crimes relacionados. Essas medidas, embora importantes, são direcionadas para a resposta e punição após o crime ter sido cometido.

A abordagem dos nove candidatos entrevistados, que representam diferentes espectros políticos, não contemplou a regulação das redes sociais como um mecanismo para coibir a disseminação da misoginia – o ódio contra as mulheres. Essa omissão levanta questionamentos sobre a abrangência das estratégias propostas para combater a violência de gênero em sua totalidade.

A Urgência da Regulação e a Prevenção da Misoginia

Especialistas alertam que o combate eficaz à violência contra a mulher deve começar pela prevenção, e não apenas pela punição. Bruna Camilo, pesquisadora em gênero e misoginia, enfatiza que “só punir não resolve”. Para ela, é fundamental desenvolver políticas públicas que promovam a prevenção e a desradicalização da misoginia, que se tornou uma forma de radicalização na sociedade.

Camilo aponta que empresas de tecnologia frequentemente lucram com a veiculação de conteúdos misóginos, que alimentam o discurso de ódio contra mulheres. Canais de “coach de masculinidade” hospedados em plataformas como o YouTube são exemplos dessa dinâmica. A pesquisadora defende que as “Big Techs” sejam efetivamente punidas, pois seus algoritmos continuam a promover a misoginia. Ela cita como exemplo vídeos que simulam esfaqueamentos de garotas por recusa de namoro, que viralizaram no TikTok, refletindo uma “lógica de construção de garotos mimados, que não aceitam não”.

O Impacto da Misoginia Online na Vida Real

A difusão de conteúdos que estimulam comportamentos misóginos pode ter consequências trágicas, culminando em feminicídios. Um caso emblemático é o do tenente-coronel da Polícia Militar Geraldo Neto, que foi acusado de matar a própria esposa, também policial. Em mensagens trocadas entre o casal, o policial se autodenominava “macho alfa” e exigia que a esposa fosse uma “fêmea beta obediente e submissa”, termos frequentemente utilizados em canais masculinistas e na chamada “machosfera”.

Esse episódio ilustra a perigosa conexão entre o discurso de ódio propagado online e a violência no mundo real. A pesquisadora Bruna Camilo, autora do livro “Machosfera”, adverte que, sem uma política séria de regulação das plataformas digitais, a violência persistirá e os homens continuarão a ser alimentados por esse ódio.

Conscientização e o Caminho para a Mudança

Além da regulação, outra medida complementar crucial, segundo a pesquisadora, é a conscientização, ou um “letramento sobre consentimento”. É essencial que meninos e meninas compreendam o significado do consentimento, pois muitas vezes as vítimas aceitam a violência por acreditarem que devem se submeter ou que “relacionamento é isso mesmo”.

A ausência de propostas que abordem a regulação das redes sociais por parte dos candidatos ao Senado em São Paulo destaca a necessidade de uma visão mais abrangente e preventiva para o combate à violência contra a mulher, que inclua o enfrentamento das raízes da misoginia digital.

Redação on-line

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