O candidato à Presidência, Romeu Zema, foi submetido a uma sabatina conjunta promovida por veículos de comunicação, onde abordou diversos temas relevantes para o cenário nacional. Durante a entrevista, conduzida por jornalistas experientes, Zema fez uma série de declarações sobre economia, gestão pública, políticas sociais e o desempenho de sua administração em Minas Gerais.
As afirmações do candidato foram posteriormente analisadas por uma equipe de verificação de fatos, que confrontou seus dados com informações oficiais e levantamentos de órgãos competentes. O objetivo foi esclarecer a veracidade das declarações, distinguindo o que se alinha com os registros públicos e o que apresenta divergências ou imprecisões.
Checagem das afirmações sobre gestão fiscal e econômica
Romeu Zema afirmou que o Brasil mantém uma dependência significativa da importação de óleo diesel e gasolina. Dados do anuário estatístico da Agência Nacional de Petróleo, Gás e Biocombustíveis (ANP) de 2025 confirmam essa realidade, mostrando um aumento nas importações de ambos os combustíveis. O país importa para suprir a demanda interna, e medidas como a elevação da mistura de etanol na gasolina foram adotadas para mitigar essa dependência. Acesse o anuário da ANP para mais informações.
O candidato também defendeu sua gestão em Minas Gerais, alegando que não houve escândalos ou fraudes sob sua administração e que não abriria mão de princípios éticos. Contudo, em setembro de 2025, a Operação Rejeito da Polícia Federal revelou um esquema de corrupção envolvendo a concessão fraudulenta de licenças ambientais no estado. A investigação atingiu altos escalões do governo estadual, com prisões e afastamentos de dirigentes. O próprio Zema reconheceu, à época, que a Controladoria-Geral do Estado já investigava ilegalidades e prometeu apoio às apurações.
Sobre a privatização de empresas estaduais, Zema mencionou a venda de participações e a privatização da Copasa, destacando que a aprovação na Assembleia Legislativa de Minas Gerais exigiu maioria qualificada. O Projeto de Lei 4.380/25, que autorizava a privatização da Copasa, foi de fato aprovado em dois turnos com maioria qualificada, superando os três quintos dos votos necessários.
Incentivos fiscais e programas sociais: O que foi implementado
Zema declarou que todos os incentivos fiscais existentes em Minas Gerais durante sua gestão foram criados antes de ele assumir o governo, em 1º de janeiro de 2019, e que ele não teria criado nenhum novo incentivo. Essa afirmação, no entanto, não se alinha com os registros legislativos.
Em 2021, o governador aprovou a Lei 23.762, que ampliou a isenção de Imposto sobre Operações relativas à Circulação de Mercadorias e sobre Prestações de Serviços de Transporte Interestadual e Intermunicipal e de Comunicação (ICMS) para energia de fontes renováveis e concedeu isenção de Imposto sobre a Propriedade de Veículos Automotores (IPVA) para veículos movidos a gás natural. Posteriormente, em 2023, Zema sancionou a Lei 24.398, que dispensou locadoras de pagar a diferença de 3% do IPVA em transferências para subsidiárias de revenda. Em 2025, a Lei 25.378 ampliou a isenção de IPVA para veículos elétricos, híbridos, a gás natural ou exclusivamente a etanol produzidos em Minas Gerais.
A respeito das apostas online, o candidato afirmou que as “bets” rendem bilhões para o governo federal, mas que não existe nenhum programa social de apoio a pessoas viciadas em jogos. A primeira parte da declaração é verdadeira: em 2025, a União arrecadou cerca de R$ 9,95 bilhões em impostos dessas empresas. Contudo, a segunda parte é imprecisa. Desde março de 2026, o Sistema Único de Saúde (SUS) oferece um serviço específico de teleatendimento psicológico para apostadores e seus familiares, com capacidade para milhares de atendimentos mensais via aplicativo.
Desempenho fiscal e valorização de empresas estatais
Romeu Zema destacou sua atuação no ajuste fiscal de Minas Gerais, afirmando ter recebido o estado com um déficit de R$ 11 bilhões e entregue cinco superávits em sua gestão. Ele também mencionou a redução da folha de pagamento de 67% para 49% da Receita Corrente Líquida. Os dados confirmam que Minas Gerais encerrou 2018 com um déficit de R$ 11,2 bilhões e registrou superávits entre 2021 e 2025. A despesa com pessoal de fato caiu para 48,21% em 2025, embora ainda estivesse acima do limite prudencial, o que motivou alerta do Tribunal de Contas de Minas. A dívida do estado com a União, originada na década de 1990, teve seus pagamentos suspensos por decisões judiciais desde 2018.
O candidato também mencionou que o Produto Interno Bruto (PIB) de Minas Gerais ganhou participação no PIB do Brasil durante sua gestão. Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), a participação do estado no PIB brasileiro variou de 8,8% em 2018 para 8,9% em 2023, com um pico de 9,5% em 2021. Houve, portanto, um ganho líquido de 0,1 ponto percentual no período analisado.
Zema ainda argumentou que a chegada de um governo responsável impacta o mercado, citando a valorização das ações de empresas mineiras como Copasa e Cemig. Dados do Valor Data, com base na B3, mostram que as ações da Copasa subiram 38,8% e as da Cemig avançaram 61,4% entre o último pregão antes do primeiro turno da eleição de 2018 e a posse do governador. No primeiro ano de mandato, as ações da Copasa, privatizada em maio de 2026, avançaram mais 13,1%, e os papéis da Cemig, que não foi privatizada, subiram 4,5%.
Desafios previdenciários e a necessidade de corte de gastos
Sobre o regime previdenciário, Zema declarou que o sistema atual apresenta um déficit anual de R$ 400 bilhões. A Previdência brasileira de fato registra um déficit elevado, mas o valor foi superestimado pelo candidato. Em 2025, a diferença entre receitas e despesas dos regimes previdenciários federais totalizou aproximadamente R$ 436 bilhões. Desse montante, mais de R$ 320 bilhões foram destinados a cobrir o déficit do Regime Geral de Previdência Social (INSS), além de aportes para a previdência de servidores públicos e militares das Forças Armadas. Assim, a afirmação sobre o déficit é correta em sua essência, mas o valor exato divergiu ligeiramente do dado oficial.
O candidato finalizou algumas de suas colocações ressaltando a importância de cortar gastos para a viabilidade do país, indicando que o Brasil não se sustentaria sem essa medida.
