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Apuração da PF revela emenda parlamentar de senador a miliciano condenado no caso Marielle

A Polícia Federal (PF) investiga o destino de uma emenda parlamentar de quase R$ 200 mil, destinada por um senador a um projeto esportivo, a pedido de um miliciano condenado por seu envolvimento na morte da vereadora Marielle Franco e de seu motorista Anderson Gomes. A apuração, que se tornou pública, baseia-se em mensagens de WhatsApp encontradas no celular do miliciano, que indicam a negociação do repasse de recursos públicos.

O caso, inicialmente noticiado por outros veículos de imprensa, ganhou novos detalhes com a obtenção dos prints das conversas pela PF. Os diálogos revelam uma interlocução direta entre o miliciano e uma assessora parlamentar do gabinete do senador, levantando questões sobre a transparência e a legalidade na destinação de verbas públicas.

Investigação sobre o repasse e o papel do miliciano

A Polícia Federal encontrou evidências de que o repasse da emenda parlamentar foi negociado em 2023 entre Robson Calixto, conhecido como Peixe, e Maria de Fátima Bezerra Castro, secretária parlamentar no gabinete do senador. Peixe foi condenado pelo Supremo Tribunal Federal (STF) a nove anos de prisão por ser o elo entre os executores e os mandantes do assassinato de Marielle e Anderson, ocorrido em 2018.

As mensagens foram apreendidas no celular do miliciano em 2024, quando ele passou a ser investigado pela morte de Marielle. A PF descreve Maria de Fátima como a “interlocutora direta” de Peixe no gabinete do parlamentar, indicando uma proximidade na comunicação para tratar de assuntos relacionados à destinação de recursos.

Diálogos revelam negociação da emenda parlamentar

As conversas de WhatsApp, datadas de outubro de 2023, mostram Peixe solicitando ajuda ao senador para um projeto. A assessora parlamentar, por sua vez, pediu que ele enviasse a solicitação formalmente. Após o envio de um ofício, a assessora perguntou sobre a vinda do miliciano a Brasília, sugerindo um encontro para reforçar o pedido.

Em um dos diálogos, a assessora convidou Peixe para um evento de entrega de coletes balísticos à Polícia Militar do Rio de Janeiro, indicando que seria uma “ocasião em que o pedido de recursos poderia ser pessoalmente reforçado” com o senador. Dias após as insistências do miliciano, a emenda foi destinada ao Instituto de Formação Profissional José Carlos Procópio (IFOP) em novembro de 2023.

Indícios de desvio e irregularidades apontadas pelo TCU

A emenda, no valor de R$ 199.999,79, foi repassada ao Ministério do Esporte para o projeto “Jogadores do Futuro”, que visava atender crianças em um bairro do Rio de Janeiro. Contudo, um relatório técnico do Tribunal de Contas da União (TCU), elaborado em 2025, apontou indícios de desvio do dinheiro público.

O TCU verificou que a empresa contratada pelo IFOP para coordenar o projeto esportivo, uma sociedade individual de advocacia, não possuía relação com atividades esportivas. Além disso, o responsável pela empresa contratada era o próprio presidente do IFOP, entidade beneficiária da emenda, o que configura uma suposta irregularidade.

Solicitações de ‘favores’ e a defesa do senador

A análise das mensagens pela PF também revelou que a assessora parlamentar solicitou “favores” a Peixe em janeiro de 2024, meses após a destinação da emenda. Entre os pedidos, estavam quatro ingressos para o desfile das campeãs no camarote Arpoador, no Sambódromo. O miliciano, então, buscou os ingressos com um terceiro, o que a PF interpretou como uma “solicitação de vantagem indevida”.

Em sua defesa, o senador afirmou, por meio de sua assessoria, que a destinação da emenda foi realizada “dentro da legislação vigente e dos critérios técnicos do Ministério do Esporte”. Ele ressaltou que a responsabilidade pela execução dos recursos é da entidade beneficiária e que eventuais irregularidades devem ser apuradas pelos órgãos de controle, conforme a lei. A investigação sobre os supostos desvios de emendas ligadas a condenados no caso Marielle tramita sob sigilo no Supremo Tribunal Federal. Para mais informações sobre o cenário político e investigações, acesse g1.globo.com/politica/.

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