Cinquenta dias após a liberação das “vaquinhas virtuais” para as eleições de 2026, o cenário do financiamento coletivo de campanhas começa a se desenhar. Uma das plataformas autorizadas pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE) a intermediar doações de pessoas físicas a políticos revela que os dez pré-candidatos mais apoiados já receberam, juntos, quase R$ 3 milhões. Os dados, atualizados até as 18h20 de sexta-feira (3), mostram a crescente relevância dessa modalidade de arrecadação para o próximo pleito.
A plataforma QueroApoiar, que disponibiliza um ranking em tempo real, destaca a liderança de Renan Santos, pré-candidato à Presidência da República pelo partido Missão. Ele já superou a marca de R$ 1,1 milhão em doações, com um total exato de R$ 1.137.103,84 arrecadados por 19.083 apoiadores, evidenciando a força do engajamento digital e a importância do financiamento coletivo para candidaturas.
O cenário das doações: pré-candidatos de 2026 já somam quase R$ 3 milhões
A lista dos pré-candidatos que mais receberam doações até o momento reflete um perfil predominante de políticos com forte presença nas redes sociais, muitos deles alinhados à direita. O ranking da plataforma QueroApoiar detalha os valores e o número de apoiadores de cada um:
- Renan Santos (Missão), pré-candidato à Presidência: R$ 1.137.103,84 (19.083 apoiadores)
- Jones Manoel (Psol), pré-candidato a deputado federal / PE: R$ 447.919,61 (9.799 apoiadores)
- Marcel Van Hattem (Novo), pré-candidato ao Senado / RS: R$ 338.419,30 (3.468 apoiadores)
- Rodrigo Spada (PSD), pré-candidato a deputado federal / SP: R$ 260.400,48 (306 apoiadores)
- Kim Kataguiri (Missão), pré-candidato a deputado federal / SP: R$ 191.879,14 (2.579 apoiadores)
- Humberto Matos (PCdoB), pré-candidato a deputado estadual / RS: R$ 152.852,38 (2.233 apoiadores)
- Elias Jabbour (PCdoB), pré-candidato a deputado estadual / RJ: R$ 129.004,13 (1.755 apoiadores)
- Professor José (PSB), pré-candidato a deputado federal / RJ: R$ 109.068,40 (3.810 apoiadores)
- Gustavo Gayer (PL), pré-candidato ao Senado / GO: R$ 85.884,08 (744 apoiadores)
- Rony Gabriel (Podemos), pré-candidato a deputado federal / RS: R$ 70.176,22 (1.732 apoiadores)
Redes sociais e engajamento: o perfil dos líderes na arrecadação
A maioria dos políticos no topo do ranking demonstra uma forte presença nas redes sociais, um fator que, segundo especialistas, está diretamente correlacionado ao sucesso na arrecadação via financiamento coletivo. O cientista político e professor da FGV, Marco Antonio Teixeira, aponta que políticos de direita têm atuado nas redes sociais há mais tempo, enquanto a esquerda vem intensificando sua presença mais recentemente.
Teixeira explica que as redes sociais servem como um espaço crucial para dialogar com cidadãos que não participam de estruturas políticas tradicionais, como partidos ou sindicatos. Esses usuários, atraídos por conteúdos e posicionamentos, são mobilizados a apoiar financeiramente, tornando-se “militantes que não vão para a rua”. A organização por trás desses nomes, como a infraestrutura do partido Missão para Renan Santos e Kim Kataguiri, ou o ativismo individual de Jones Manoel, que possui quase 2 milhões de seguidores no Instagram, são exemplos dessa estratégia.
Outros nomes na lista, como Humberto Matos e Professor José, utilizam canais no YouTube para comentar sobre política. Elias Jabbour, professor de Economia da UERJ e ex-assessor da ex-presidente Dilma Rousseff, e Rodrigo Spada, auditor fiscal da Receita Federal, também se destacam. A lista ainda inclui políticos que aproveitaram a visibilidade de atos públicos para se lançar, como Rony Gabriel, que revelou um esquema de contratação de influenciadores. Congressistas experientes como Marcel Van Hattem e Gustavo Gayer também figuram entre os mais apoiados.
A relevância estratégica do financiamento coletivo para as campanhas
O financiamento coletivo assume uma importância estratégica, especialmente para partidos menores. O Missão, por exemplo, é a sigla com o maior valor arrecadado na plataforma QueroApoiar e, devido ao baixo número de assentos no Congresso, receberá a cota mínima do Fundo Eleitoral do TSE, de R$ 3.307.679,85. A coordenadora da campanha de Renan Santos, Amanda Vettorazzo, vereadora em São Paulo, confirmou que o partido terá recursos limitados do Fundo Eleitoral e não possui Fundo Partidário, dependendo das doações para a campanha de Renan Santos.
Em contraste, candidaturas de maior porte, como as de Lula (PT), Flávio Bolsonaro (PL), Romeu Zema (Novo) e Ronaldo Caiado (PSD), ainda não abriram vaquinhas. O advogado especialista em Direito Eleitoral, Francisco Zarco, explica que essas candidaturas se baseiam mais na “força das máquinas públicas” e tendem a lançar suas campanhas de arrecadação mais próximo do período eleitoral, entre o final de julho e o início de agosto. As siglas desses pré-candidatos receberão valores substanciais do Fundo Eleitoral, como R$ 881,7 milhões para o PL, R$ 615,4 milhões para o PT, R$ 421 milhões para o PSD e R$ 90,11 milhões para o Novo.
Regulamentação e histórico: as normas das vaquinhas eleitorais
Conhecido formalmente como “financiamento coletivo”, as vaquinhas são doações de pessoas físicas realizadas pela internet para as campanhas eleitorais. Essa modalidade foi regulamentada pelo TSE em 2019, após uma reforma eleitoral e uma decisão do Supremo Tribunal Federal (STF) que proibiu doações de pessoas jurídicas, visando evitar o desequilíbrio do processo eleitoral pelo poder econômico. O financiamento coletivo já foi utilizado nas eleições de 2018, 2020, 2022 e 2024, acumulando R$ 14,6 milhões nas presidenciais anteriores e R$ 7,7 milhões nas municipais de 2024.
As regras estabelecidas pela Justiça Eleitoral exigem que candidatos e partidos abram uma conta bancária específica para as doações, que podem ser recebidas de 15 de maio até o dia das eleições. As principais normas incluem:
- Eleitores podem doar até 10% da renda bruta declarada à Receita Federal no ano anterior.
- Todas as doações devem ser identificadas com o CPF do doador, seja via PIX, transação bancária ou cessão temporária de bens/serviços.
- Doações financeiras iguais ou superiores a R$ 1.064,10 só podem ser feitas por transferência bancária ou cheque cruzado nominal.
- É proibido o uso de criptomoedas ou moedas virtuais.
Plataformas especializadas, como a QueroApoiar, devem estar cadastradas e autorizadas pelo TSE, cumprindo termos do Banco Central. Elas são obrigadas a identificar doadores, valores e datas, disponibilizar a lista de apoiadores em tempo real, emitir comprovantes e deixar claras as taxas administrativas. É proibido veicular pedidos de voto antes de 16 de agosto, data de início da campanha eleitoral. A prestação parcial de contas deve ser apresentada de 9 a 13 de setembro, e a completa até 14 de novembro.
Para mais informações sobre as regras de financiamento coletivo, consulte o site do Tribunal Superior Eleitoral.
Plataformas autorizadas para o financiamento de campanhas
Até a publicação desta reportagem, o TSE autorizou o funcionamento de dez plataformas para a intermediação de doações eleitorais. Nem todas iniciaram suas operações, mas, uma vez ativas, devem disponibilizar atualizações em tempo real dos valores recebidos por cada pré-candidato. As plataformas são:
- Apoia.se
- DoarPara
- AS2 Solutions
- Conectei
- Elis Gestão Estratégica
- GMT Tecnologia
- Quero Apoiar
- SmartCast
- Um a Mais
- Webi9

