Apesar de constituírem a maior parcela do eleitorado brasileiro, com mais de 52% dos votantes, as mulheres ainda enfrentam uma significativa sub-representação nos núcleos estratégicos das campanhas dos principais candidatos à Presidência da República para as eleições de 2026. Um levantamento recente revelou que, mesmo sendo decisivas para o resultado das urnas, a presença feminina em posições de coordenação, comunicação, marketing, jurídico e outras áreas cruciais é notavelmente limitada.
Essa disparidade levanta questões importantes sobre a efetiva inclusão de perspectivas femininas na formulação de propostas e na comunicação política, especialmente considerando que todos os presidenciáveis dedicam atenção a políticas específicas para as mulheres em seus planos de governo. A análise focou nos nomes apresentados pelas próprias campanhas como integrantes de suas equipes centrais, buscando identificar quem realmente ocupa funções ligadas à estratégia e à tomada de decisões.
Desequilíbrio na liderança das campanhas presidenciais
O estudo da GloboNews, que analisou as equipes de Flávio Bolsonaro (PL), Romeu Zema (Novo), Renan Santos (Missão), Ronaldo Caiado (PSD) e Augusto Cury (Avante), os candidatos mais bem posicionados nas pesquisas eleitorais, apontou um cenário de predominância masculina. Essa apuração se concentrou no “núcleo duro” das campanhas, responsável pela formulação de estratégias, propostas e comunicação, excluindo fornecedores ou equipes de mobilização de rua.
Entre os candidatos analisados, Flávio Bolsonaro se destaca por ter o maior número de mulheres em sua equipe estratégica, com 10 profissionais do gênero feminino entre 26 funcionários identificados. Em seguida, Renan Santos e Ronaldo Caiado contam com seis mulheres cada em suas campanhas. Romeu Zema apresenta cinco mulheres em seu time, enquanto Augusto Cury tem quatro. A assessoria da campanha do presidente Luís Inácio Lula da Silva (PT) não confirmou oficialmente a lista de mulheres, sendo os nomes levantados por apuração jornalística.
A composição das equipes estratégicas por candidato
A presença feminina nas equipes estratégicas dos candidatos, embora ainda minoritária, varia em termos de áreas de atuação. Para Luís Inácio Lula da Silva (PT), nomes como Mônica Valente (mobilização nos estados), Nicole Briones (coordenação digital do partido), Claudinha Lima (secretária de Nucleação), Júlia Kopf (secretária de Juventude), Lucinha Barbosa (secretária de Movimentos Populares e Políticas Setoriais), Mazé Morais (secretária Nacional de Mulheres do PT) e Luna Zarattini (articulação com eleitorado jovem) foram identificados.
Na campanha de Flávio Bolsonaro (PL), destacam-se Daniella Marques (coordenadora econômica), Maria Cláudia Bucchianeri (coordenadora jurídica eleitoral), Myrian Prado e Francielly Almeida (núcleo de economia), Tereza Cristina (agronegócio), Carolina Ragazzi e Lyvia Montezano (núcleo de Mulheres), Fernanda de Luca (assessoria de imprensa) e Michelle Rodrigues (área digital), além de Bruna Leal (consultora de tecnologia).
A equipe de Renan Santos (Missão) inclui Jannifer Cabral (produção geral), Catalina Soifer (assistência jurídica), Rafaela Cupertino (coordenação da Missão Mulher), Nevilane Vasconcelos (assessoria de imprensa), Nicoly Santos (coordenação logística) e Amanda Vettorazzo (coordenação de campanha). Já em Ronaldo Caiado (PSD), foram identificadas Cristiane Schmidt e Ana Carla Abrão (núcleo de Economia), Valéria Torres Reis (Estratégia de Campanha), Fatima Gaviolli (núcleo de Educação), Andrea Vulcanis (Meio Ambiente) e Alda Marcantonio (núcleo Social e de Educação).
Para Romeu Zema (Novo), a equipe conta com Luciana Lopes (gestão pública), Samanta Pineda (meio ambiente), Adriana Ventura (saúde), Elizabeth Jucá (desenvolvimento social) e Bárbara Botega (cultura e turismo). Por fim, na campanha de Augusto Cury (Avante), estão Luciana Martins (coordenação nacional), Adriana Saraiva (logística e operações), Ana Augusta Ribeiro (comunicação e marketing) e Damaris Bubans (agenda, mobilização e acompanhamento estratégico).
A importância das propostas femininas nos planos de governo
Apesar da baixa representatividade nos comandos das campanhas, a pauta feminina é tratada como um eixo estratégico nos planos de governo dos presidenciáveis. A inclusão de políticas voltadas às mulheres é vista como crucial para dialogar com o eleitorado e se destacar nas urnas. O Tribunal Superior Eleitoral (TSE), por exemplo, frequentemente destaca a importância da participação feminina na política.
Lula defende a continuidade do Pacto de Enfrentamento ao Feminicídio, enquanto Flávio Bolsonaro concentra suas propostas no plano “Brasil por Elas”. Zema aborda o tema nas áreas de segurança e saúde, propondo a ampliação das Delegacias da Mulher com funcionamento 24 horas. Cury dedica um capítulo à Política Pública de Proteção às Mulheres, com o Programa Mulheres Vivas. Ronaldo Caiado, por sua vez, organiza seu plano em torno de quatro direitos femininos: viver sem violência, cuidar da saúde, trabalhar e empreender com igualdade, e participar das decisões, incluindo um Pacto Nacional pelo Fim do Feminicídio e um selo para empresas com igualdade salarial.
Sub-representação feminina além dos bastidores
O desequilíbrio na participação feminina não se restringe aos bastidores das campanhas. Ele reflete um cenário mais amplo de sub-representação nas próprias candidaturas. Em 2026, as mulheres representam 34,8% das candidaturas registradas para as eleições, um leve aumento em relação aos 33,8% de 2022. No entanto, a distância é ainda maior na disputa presidencial: das 13 candidaturas ao Planalto, apenas duas são de mulheres, uma queda pela metade em comparação com 2022, quando havia quatro candidatas.
Para os governos estaduais, as mulheres são 16,4% dos candidatos, e para o Senado, 21,9%. Curiosamente, a participação feminina sobe para 38,5% nas vagas de vice-presidente e 42,9% nas de vice-governador, a maior proporção entre todos os cargos em disputa. Esse dado reforça um padrão observado na política brasileira: mulheres tendem a avançar mais em posições de apoio do que como cabeças de chapa, indicando que o caminho para a plena igualdade de representação ainda é longo e desafiador.

